Os leitores de estrelas

fevereiro 25, 2010

Não existe coluna sem leitor. A experiência de escrever na internet é a prova que não se pode prever nada, especialmente o tipo de leitor para quem o colunista escreve. Aqui em “O Indivíduo”, recebo poucos, mas bons e-mails sobre o que escrevo. Quando uso o adjetivo “bom”, não falo em baba-ovo, e sim leitor que sabe colaborar com a coluna, dando seus comentários, ajudando o coitado deste escriba que vos fala em fazer algo melhor na semana seguinte. Afinal de contas, se alguém pensa que toda a sexta feira pela manhã, você encontra essa coluna prontinha, junto com a do Alvaro Velloso, não é por vaidade minha, e sim pela certeza de que encontrarei algum leitor paciente, que tirará proveito do que escrevi, para alguma coisa de útil na vida.

Claro que existem os leitores chatos, mas estes eu deixo para o limbo dos esquerdosos ou dos sei-lá-o-quê enrustidos (o politicamente correto me proíbe escrever a palavra por extenso). O que importa mesmo são os leitores que me motivam a queimar o cerébro toda a santa semana, e são para eles que a coluna de hoje é dedicada.

Começaremos com as mulheres, claro. Existem cinco leitoras para quem escrevo especificamente a minha coluna. A primeira é minha mãe já que, segundo meu mapa astrológico e meu psiquiatra de quinta categoria, sou um autêntico filho da mãe, com complexo de Édipo muito bem resolvido, obrigado. A segunda é uma outra moça, que mora muito, mas muito longe daqui, e que se eu der o nome dela nesta coluna, estarei rompendo um pacto muito sério feito em New Jersey, apesar de que pactos feitos em New Jersey terminam em nada. Mesmo assim, fico quieto, até porque ela é uma leitora fiel. A terceira é a senhorita Maria Inês de Carvalho, uma moça séria, inteligente, e que escreve num blog mui interessante, com uns links que não tenho paciência para procurar na rede. Há também a misteriosa Ada Veen, que, ao que parece, só pode ter saído das páginas de Nabokov pois, pelo o que se percebe do blog dela, esta mulher tem uma mente brilhante, do tipo que a gente quer guardar como uma jóia, uma dessas preciosidades que acontecem de cem em cem anos. A última leitora, last but not least, é aquela carinhosa que me avisa dos meus erros de pedreiro na última flor do lácio, e abençoada seja porque, sem ela, esta coluna não passava da minha caixa de e-mails.

Agora vamos aos homens. Na semana passada, quem leu o meu ensaio sobre José Guilherme Merquior (que me deixou com o cérebro em faíscas, tamanha a perturbação que me causou), percebeu que eu dava uma nova visão do famoso liberal – uma visão não muito liberal, para falar a verdade. Achava que estava delirando, mas recebi uma mensagem do Sr. Embaixador José Osvaldo de Meira Penna, autor de “Em Berço Esplêndido” e ” O Espírito das Revoluções”, e vi que não estava sozinho nas minhas investigações. Reproduzo a mensagem abaixo:

“Embora em última análise admirador de Merquior, sempre tive restrições a uma certa forma de oportunismo que caracterizava sua erudição. Ele teve, por isso, sucesso com gente oportunista e de pouca cultura, como o Collor de quem se tornou guru, gerando a idéia de “liberalismo social”, conceito que nada significa mas usa o mantra “social” para fazer sucesso. Merquior teve uma polêmica feroz sobre Platão com nosso colega e amigo Mário Vieira de Mello, que antes eu chamaria de ultra-conservador.

“Comigo também sobre Jung. Vendo seus ataques contra o suíço, que conheço bem pois tenho 40 anos de associação com a psicologia de Jung, que conheci em Zurique em 1961, ano de sua morte, apontei para a falsidade de sua posição no JORNAL DO BRASIL. Ele rebateu, com muita verve. Verificando nas bibliografias de todos seus livros – pois ele era absolutamente cuidadoso nisso e nos seus índices – descobri que só tinha lido um livro sobre psicologia analítica, intitulado “Freud e seus Discípulos”, de Roazen, que era um freudiano muito anti-Jung. Atacava Jung injustamente de anti-semita e pró-nazista, além de mistagogo.

“Veio a polêmica e eu me queixei que quem ataca um autor deveria, pelo menos, ler os livros desse autor… Para evitar que a polêmica degenerasse, em certo momento achei melhor interrompê-la. Pouco tempo depois soube que ele estava doente.

“Há uns 3 ou 4 anos tivemos um seminário sobre o Merquior em Terezópólis, organizado pelo Instituto Liberal do Rio e o Liberty Fund de Indianapolis, USA, sobre a obra do Merquior. Houve mais ou menos um consenso que ele foi um formidável polemista, muito culto e com implacável ironia, mas não um liberal autêntico.

“Abraços Meira Penna”

Eu havia apontado a crítica de Jung feita por Merquior como uma das amostras de que ele tinha um medo terrível da vida do espírito. Não sou jungiano fanático, mas acredito que o suíço tinha intuições geniais, muito mais apuradas que o Dr. Freud, e elas não devem ser desprezadas. Há um artigo de René Guénon em “Os Símbolos da Ciência Sagrada” em que ele arrasa com Jung em menos de cinco páginas; entretanto, Guénon havia lido alguma coisa de Jung e era o mestre na questão da simbologia tradicional. Atacar a teoria jungiana sem ter lido nenhum livro dele é uma burrice sem fundo. Não suporto Marx, mas me obriguei a ler algo dele para que a minha objeção tivesse um sentido.

Se Merquior fez isso ou não, seria tristeza saber que ele caiu no mesmo erro de tantos esquerdistas. Regra básica para uma vida intelectual honesta: o que você não sabe, você diz que não sabe. Nunca fique propalando besteiras aos quatro ventos. Deus não merece tamanha heresia. Já dizia Dirty Harry: “A man´s got to know his limitations“.

Outro leitor, Jorge Kreimer, enviou-me uma versão do Salmo 88, aquele que utilizei no meu ensaio “Na Companhia das Trevas”, traduzido do aramaico. Eis aqui a nova versão:

“1 Um cântico, com acompanhamento musical, pelos filhos de Korach, para o Condutor, sobre Machalat Leanot, um Maskil por Heiman, o ezrachita.
2 Senhor, D-us de minha salvação, de dia eu clamo, de noite estou diante de Ti.
3 Que minha prece venha diante de Ti, inclina Teu ouvido ao meu lamento.
4 Pois minha alma está saturada de tormentos e minha vida já alcançou o Mundo Mais Baixo.
5 Fui considerado com aqueles que descem ao túmulo, fui como um homem sem força.
6 Entre os mortos que estão livres, como os cadáveres que jazem na sepultura, que Tu não mais lembras; mas eles morreram por Tua mão.
7 Tu me colocaste ma mais baixa das covas, na mais extrema escuridão, nas sombrias profundezas.
8 Sobre mim Tua cólera pesou, e todas as Tuas ondas estrondosas afligiram-me.
9 Tu distanciaste meus amigos de mim, Tu me fizeste abominável para eles; fui encarcerado sem poder sair.
10 Meu olho é molestado pela aflição; clamei a Ti, oh Senhor, todo dia. Estendi minhas mãos a Ti.
11 Tu farás maravilhas para os mortos? Os fracos se erguerão e Te oferecerão agradecimento?Selá.
12 Pode Tua benevolência ser recordada no túmulo? Ou Tua fidelidade na extrema ruína?
13 Podem Tuas maravilhas tornar-se conhecidas no escuro? Ou Tua retidão na terra do esquecimento?
14 Porém, eu a Ti, Senhor, tenho clamado, e pela manhã minha prece Te saudará.
15 Por que, Senhor, Tu abandonarias minha alma? Por que Tu esconderias Tua face de mim?
16 Aflito estou, e próximo à morte desde a juventude. Tenho carregado Teus horrores e sinto constante pavor.
17 Tuas fúrias vieram sobre mim, Teus horrores me esfolaram.
18 Eles me cercaram como água o dia inteiro, me circundaram em uníssono.
19 Tu distanciaste de mim amigo e companheiro, meus mais queridos (estão) em obscuridade.”

A versão que usei no meu texto é fogo de palha perto desta. Agora temos a dignidade do sofrimento em versos terríveis como: “Tu distanciaste meus amigos de mim, Tu me fizeste abominável para eles; fui encarcerado sem poder sair / Meu olho é molestado pela aflição; clamei a Ti, oh Senhor, todo dia. Estendi minhas mãos a Ti”. Não é à toa que Salomão dizia: “O temor a Deus é o princípio do conhecimento”. Abaixo reproduzo uma nota de pé-de-página, transcrita também por Jorge Kreimer:

“O exílio e a dispersão de Israel foram Divinamente ordenados como instrumentos para estimular o desenvolvimento espiritual na perseguição da perfeição. No exílio, o judeu solitário e inseguro é compelido a voltar à fonte Divina de força, para encontrar segurança e propósito para sua vida. O exílio é excepcionalmente próximo de D-us, pois nenhuma lealdade às nações seculares interfere com sua devoção a D-us. Idealmente, a santidade de Eretz Ysrael conduzirá o povo a elevadas percepções de D-us e ao cumprimento de seu potencial espiritual. Mas em vez de usar a terra para aumentar seu desenvolvimento, eles se permitiram tornar-se criaturas da terra. Portanto, foram exilados, de modo que compreendessem que seu “lar” é a Torá, não um pedaço de propriedade; e seu sucesso depende de Mitzvot (boa ação), não de um arado. Apesar da oportunidade de desenvolvimento espiritual que o Galut (exílio) oferece, a depressão, a desgraça e a destruição ameaçam o errante sofredor. Nos versículos seguintes, os filhos de Korach descrevem vivamente as agonias do Galut e expressam o anseio de Israel de redenção Divina. A expressão machalat Leanot no texto descreve o penoso estado de Israel no exílio. Machalá é doentio (ansiando pela Terra Santa) e Leanot é afligido (pela perseguição no exílio). Heiman era, segundo alguns dos nossos sábios, aquele que provia acompanhamento musical para os Salmos. O fato de ser cognominado o ezrachita deve advir de ter sido um residente permanente do Templo (Ezrach)”.

A nota não precisa de comentários porque fala por si só.

São para leitores como essas mulheres e homens que escrevo esta coluna em O Indivíduo. São poucos, mas são os melhores do mundo. Não escrevo pelo prazer bobo da polêmica, muito menos pela vontade mórbida de fazer inimigos. Antes quinze, vinte, até trinta leitores, do que cem mil patetas que falam palavras de ordem sem saberem o que dizem. É por isso que este jornal se chama “O Indivíduo”: ele fala na consciência individual de cada um, naquele fundo único da alma em que o homem se depara consigo mesmo, e ninguém mais. Se meus escritos são uma forma do leitor compreender esta solidão, então estou cumprindo minha missão direitinho.


What are the stars but points in the body of God where we insert the healing needles of our terror and longing?
Thomas Pynchon

Um mendigo dormia nas escadas de uma igreja. De súbito, acordou com umas vozes estranhas e uns passos sussurrantes. Abriu os olhos e viu um homem alto, empertigado, a cabeça fitando com a mente o céu fixo, repleto de estrelas. Observou o sujeito mais atentamente e percebeu que ele falava sozinho. Não era uma voz nítida – parecia um murmúrio trôpego. O mendigo se aproximou devagarinho para saber o que ele dizia – afinal de contas, a noite estava amena de acontecimentos, e talvez uma pilhéria pudesse atenuar a ruína de sua vida. Resolveu, então, perguntar-lhe o que estava fazendo ao relento naquele horário da noite.

– Ora, estou a olhar as estrelas – respondeu o homem.

– E daí? – disse o mendigo – Eu as vejo todas as noites.

– Ah… mas hoje elas são especiais…

O mendigo não era versado em filosofia, é verdade, mas a dura experiência das coisas permitiu-lhe desenvolver o faro de que se duas pessoas discordam de um fato, logo uma delas estava errada – e não seria ele, pois quem conhecia mais de estrelas, de sua imobilidade e fixidez, indiferença e iluminação, senão este nobre locatário do degrau quinze de uma igreja do centro, onde o céu era o teto, a pedra era o cobertor e a cruz um afiado travesseiro? Sentindo-se afrontado pelo homem em seus conhecimentos de astronomia, decidiu perguntar mais uma vez:

– Por que são especiais? Por acaso tu ganhastes na loteria?

– Ah, sim… ganhei na loteria… na loteria do poder.

Ao ver que o homem tinha os olhos faiscantes ao soletrar a palavra “poder”, jogou mais uma isca:

– E como tu ganhastes nesta loteria?

Pela primeira vez, o homem mostrou seu rosto: era magro e pontudo no queixo, o nariz meio encurvado, a barba bem aparada. Ele sorria:

– Ah, foi muito simples. Tão simples que eu nem tive de vender a minha alma ao Diabo ou coisa parecida. Aliás, para quê acreditar no Diabo? Mas foi assim: um belo dia, eu quis ser parte desta loteria, e depois de muita luta, muita persistência, consegui. Demorou, mas consegui. Subi as montanhas mais sinuosas da Terra! Tive inimigos, inúmeros, que me acusaram das mais abomináveis mentiras. Atravessei-os todos de maneira implacável. Tive traidores que também aprenderam suas lições sem sentir o gosto do perdão, porque para se dar o perdão, precisamos fazer um julgamento das coisas, e o julgamento nos destrói. Para se conseguir o que se quer, não se pode ficar dilacerado entre o Bem e o Mal. O que importa apenas é a justiça, cega, impenetrável. Por isso que não acredito no Diabo – já Deus… bem, Deus é uma mera circunstância da vida. Aprende-se a suportá-lo como se não tivesse outra coisa melhor. Afinal de contas, foi ele quem criou este céu, mas também foi ele que te criou, não foi, pobre rapaz? (Nesse ponto, o mendigo não podia deixar de concordar, e fez isso com um muxoxo.)

“Agora, como ganhei nessa loteria tão complicada, tão restrita a poucos? Muito simples: disse a todos que defendia gente como você. Isso mesmo, como você, pobre rapaz, você que vê as estrelas todos os dias, mas não pode compreendê-las. E a culpa era de quem? De Deus, é claro! Mas notes bem, percebas o detalhe deste pequeno truque: nunca diga que é Deus que fez isso contigo. Deus é muito abstrato. Vou dar-te uma lição de vida: disfarce Deus sob o nome de História, e bote toda a culpa nela. Depois, tu colocas um intermediário, que pode ser o Governo, e é aqui que nós entramos: eu digo que quero entrar no Governo para resolver o que Deus não resolveu. Compreendes a genialidade do negócio? O povo aceita isso porque é mais fácil, é mais fácil do que eles se esforçarem para resolverem seus próprios problemas. Querem que outros façam o que não têm coragem de fazer. É por isso que ganhei na loteria do poder: é o meu momento de tentar resolver os problemas que Deus nos deu como maldição. Agora, tudo está ao meu dispor, na ponta dos dedos, e as montanhas que me pareciam tão longínquas, agora estão tão perto… A única coisa que não posso alcançar são estas estrelas, é este céu, e mesmo assim… (O homem acabara de dar um voltarete vertiginoso e sua voz se tornara agitada e aguda, como se sua mente estivesse prestes explodir de tanto orgulho e satisfação) Mesmo assim, nada pode me deter. Eu ganhei na loteria do poder, entendes? Nem este céu que permanece desde dos tempos de Ulisses, tão imperativo quanto aquelas montanhas que impediam a minha vitória, pode me deter”.

O homem parou de gesticular e, num gesto de desafio, gargalhou aos brados para o alto:

– Afinal, tu não me hás de cair em cima!

E o mendigo apenas fungou o nariz:

– E nem tu hás de escalá-lo.

Dito isso, ele cobriu-se com os cascalhos e voltou a dormir.

Inspirado no capítulo XLVI do livro “Quincas Borba”, de Machado de Assis.

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