Os mortos-vivos

fevereiro 25, 2010

Tudo é um símbolo
J.W. Goethe

Hell is infinite and circular
Flann O´Brien, The Third Policeman

A vingança é um prato que se come frio
Ditado espanhol

“Angel – O Anjo da Vingança” (1982), de Neil Jordan, é um daqueles filmes que provocam uma perturbação na alma, impossível de se desgarrar depois do seu bizarro e silencioso final. Para um primeiro longa metragem, é impressionante como Jordan consegue puxar o espectador para uma gramática cinematográfica aparentemente inócua, mas, na verdade, repleta de estilo e personalidade.

roduzido por Jonh Boorman (o diretor de “À Queima Roupa” e “Excalibur”, do qual Jordan foi consultor) e fotografado por Chris Menges (um dos maiores iluminadores da Grã-Bretanha), “Angel” pega o espectador pelo pescoço ao levá-lo numa viagem de vingança onde a alucinação se torna a única realidade, e o Mal parece ser a única presença real nos quatro cantos do mundo.

De fato, Jordan sempre foi fascinado pelo problema do Mal em cada um dos seus filmes posteriores. Seu tema predileto é a a duplicidade da alma humana frente ao um mundo ambíguo por natureza, onde a salvação é um milagre quase impossível. Chamem isso de gnóstico se quiserem, mas como ninguém aqui é teólogo, é melhor problematizar a análise do que resolver com um simples peteleco puritano. Assim, ternura e brutalidade, amor e ódio, sedução e repulsa, Deus e o Diabo – tudo isso convive de maneira simultânea em cada fotograma dos filmes de Jordan. Sua coerência se mantém inalterável em sua filmografia: a crueldade da inocência em “A Companhia dos Lobos” (1984), “O Milagre” (1992) e “The Butcher Boy” (1998), a atração pelas aberrações de “The Crying Game” (1993), a brutalidade do mundo em “Michael Collins” (1996), a ternura do Demônio em “Entrevista com o Vampiro” (1994) e, finalmente, a ira de Deus, em “Fim de Caso” (1999), seu melhor filme até agora, e neste “Angel”.

A história é de uma simplicidade terrível: saxofonista (interpretado por Stephen Rea, ator-fetiche de Jordan) se envolve numa noite com uma moça surda-muda que é assassinada num crime brutal. Traumatizado, ele parte para um plano de vingança onde executará os criminosos um por um, sem dó ou piedade. Nada mais rísivel. No entanto, com esta trama a lá Charles Bronson, Jordan realiza não só um impecável filme psicológico, em que a mente do saxofonista se fragmenta em delírios paranóicos, mas também conta, entre suas cenas editadas de forma ágil e com a ajuda da iluminação etérea de Chris Menges, a iniciação espiritual deste sujeito dentro do coração das trevas.

Para transmitir esta sensação de que há uma série de forças obscuras em torno de Danny, o saxofonista, Jordan se utiliza da realidade simbólica que nos envolve o tempo todo, mas dificilmente percebemos. Neste ponto, apesar de ser irlandês, ele está mais próximo do tcheco Franz Kafka neste filme. Em seus romances inacabados, em especial “O Processo” e “O Castelo”, Kafka usa uma linguagem clara, precisa e burocrática, para jogar seus personagens quase-anônimos num inferno onde a danação é a certeza e a salvação é uma falácia. Mas isto não acontece por um motivo determinista, como a falta de predestinação, ou a desigualdade social, e sim por um motivo mais simples do que parece: ao perder a noção da realidade simbólica, na qual o mundo se ampara, o ser humano também perdeu a noção do sagrado e, por conseqüência, suas escolhas são feitas a partir de instintos profanos do que propriamente usando o discernimento moral que o espírito doa ao homem.

Tudo começa com a banda de Danny se apresentando em uma casa de festas em algum lugar distante da Irlanda do Norte. Envolvido com a cantora Dee, Danny é um saxofonista de primeira, mesmo mostrando um certo ar blasé na hora da apresentação. Enquanto a noite não começa, ele se depara com uma jovem surda-muda que, segundo o seu empresário, “veio junto com o lugar”. Os dois se afeiçoam durante os poucos minutos que sobram entre uma canção e outra. Enquanto isso, o empresário da banda discute com uma gangue paga para fazer proteção durante a turnê; o acordo é quebrado, e a gangue rompe com o empresário. Durante a apresentação, Danny também flerta com uma moça recém-casada e, neste momento, apresenta-se a ele três escolhas de vida: a música (com a cantora Dee), a vida doméstica (com a recém-casada) e o mistério (a surda-muda). Danny escolhe a última; logo depois do término da apresentação, ele se encontra com a surda-muda na frente de uma árvore desfolhada (“É a árvore dos desejos”, ele explica à jovem, enquanto os dois escutam o tilintar dos sininhos) e os dois fazem amor no terreno baldio à frente da casa de festas. “Meu Deus, onde você aprendeu isso? Na escola de freiras?!”, diz um surpreendido Danny pela perícia da deficiente. Neste momento, chega um grupo armado numa van. Eles entram na boite, agarram o empresário da banda (que estava esperando por Danny), espancam-no e matam-no com uma rajada de metralhadoras. A surda-muda se aproxima para ver melhor o que está acontecendo e acaba também sendo assassinada. Danny continua escondido e vê a morte dela num silencioso desespero.

Obviamente, o saxofonista fica traumatizado. Pouco a pouco, ele passa a substituir a sua destreza com o instrumento e a música com a habilidade das armas – tudo isso para cumprir um plano irracional de vingança, em que os culpados aparecem do nada, a partir de fatos díspares, e, o mais interessante, aceitam o aparecimento de Danny como algo normal e até razoável – como se ele cumprisse sua função de anjo vingador. É claro que isso só pode terminar em loucura. Em plena Irlanda do Norte, onde o conflito entre protestantes e católicos chegou numa bárbarie única, Danny fica mais deslocado na sua agonia, já que tem ascendência judaica. Para aumentar a confusão, Danny é acompanhado no seu horror por um comissário de polícia chamado Bloom (uma homenagem de Jordan a James Joyce?), que parece saber mais do que aparenta, tem uma tia clarividente que recita poemas a um tal de Nobodaddy (quem conhece William Blake sabe o que é isto) e, como se não bastasse, tem de agüentar a interrogação de Dee sobre sua nova personalidade e o reaparecimento da recém-casada, que estava na noite do crime, com quem tem um breve affair.

Parece trama de comédia screwball, daquelas dirigidas por Howard Hawks, mas Jordan não deixa o ritmo de tragédia cair. Danny confunde a realidade e a alucinação, caindo num permanente estado de sonho. Para ele, declarações feitas a esmo parecem carregadas de sentido, como esta dada pelo comissário Bloom: “Ele é profundo e está por toda parte. Você pode aguentá-lo?”. “O quê?”, pergunta Danny. “O Mal”, responde Bloom. A mesma coisa se dará no final quando, em busca do homem que apertou o gatilho contra a surda-muda, encontra perto dos escombros da boite uma tenda onde um garoto chamado Francie Thompson, considerado “o sétimo filho do sétimo filho”, alega realizar milagres. Ao se deparar com o garoto, Danny o vê com as mesmas roupas de saxofonista que ele vestia e desmaia pateticamente. Ao acordar, encontra um dos policiais que acompanhavam o comissário Bloom (interpretado pelo grande Donal McCann) e descobre que ele foi o assassino da garota. Um estampido vem do nada, e o policial morre, graças à pontaria certeira de ninguém menos que o comissário Bloom. “Como o senhor sabia?”, pergunta Danny, assustado. “Eu não sabia”, Bloom responde. “Você queria que eu fizesse todo o trabalho?”, diz o saxofonista. O comissário apenas faz uma menção com a cabeça: “De certa forma, sim”. Danny cambaleia para fora dos escombros da boite enquanto um vento ruidoso (provavelmente um helicóptero) levanta o pó da terra.

Recentemente, outro filme abordou o mesmo tema – a vingança –, mas sob a perspectiva da família: “Entre Quatro Paredes” (2001), de Todd Field. Para quem não liga o nome à pessoa, Field é o Nick Nightingale de “Eyes Wide Shut” (1999), de Stanley Kubrick, e logo no seu primeiro longa-metragem, mostra ser um notável discípulo do mestre, com um olho acurado para o detalhe de cena e para a direção de atores. A história de “In the bedroom” (o título original) é também o velho clichê de sempre: família perde o filho único numa tragédia, vê que o criminoso não será punido e parte para a justiça com as próprias mãos. No entanto, Field é bem sucedido em seu intento porque consegue tirar todo o subtexto desta trama comum aos olhos do espectador, impondo-o uma reflexão sobre a aceitação da perda e das imprevisibilidades da vida.

A família de Matt Fowler é o exemplo acabado desta impotência frente aos problemas que a vida apresenta, mesmo que eles estejam sob a forma das pernas bem torneadas e do olhar triste de Natalie, mãe divorciada com dois filhos pequenos, e com quem Frank Fowler, o jovem promissor, tem um caso de verão. Das cinco perguntas que são feitas seja à Matt, à sua mulher Ruth e à Frank, quatro são respondidas com um “Não sei”. Esta apatia não vai terminar bem: o ex-marido de Natalie, inconformado com o fato da sua mulher “estar trepando com um garoto do colegial”, mata Frank durante uma discussão com um tiro no olho.

A partir daí, Todd Field faz um mergulho dilacerante sobre os pais tentando lidar com esta perda abrupta. Amparado na interpretação de Tom Wilkinson (a alma do filme) e de Sissy Spacek, o espectador acompanha a vida daqueles pais que tentam purgar a morte do filho a qualquer custo, mas não conseguem. Ruth e Matt passam a se culpar um a outro pela tragédia até o momento em que, ao perceberem que o assassino não será condenado a prisão perpétua (justamente por uma falha no depoimento de Natalie, que alega ter apenas ouvido o disparo e não ter presenciado o crime) e, mesmo sem o devido julgamento feito pela Justiça, decidem pagar com a mesma moeda, matando o sujeito.

Não pensem que será uma vingança catártica, como, por exemplo, a de “Os Imperdoáveis”, de Clint Eastwood. Ali, Eastwood deixa bem claro que quando a ordem do Estado está corrompida pela falta de discernimento moral do ser humano, e quem paga o preço é a liberdade do indivíduo, a solução é reestabelecer a ordem moral através de um ato radical. Em “In the bedroom”, a situação é outra: o casal Fowler sequer questionam o Estado – eles vêem os advogados como sujeitos interesseiros, mas não culpam a ordem vigente. Por isso, eles decidem criar sua própria ordem, mandando às favas toda a imprevisibilidade que caracteriza, afinal de contas, a decisão da Justiça. No fim, o que temos é uma sociedade que não consegue superar suas perdas, e parte para a retribuição desproporcional, esquecendo-se da resignação que implica em aceitar o mundo tal como é, e não o mundo como deveria ser.

A reação feita a partir de um ato de vingança, visando a reordenar um mundo que aparentemente estava em harmonia e onde agora impera o caos, mostra como o ser humano pode atingir níveis insuspeitados de revolta espiritual. Tanto Neil Jordan como Todd Field analisam a vingança como o estopim para uma descida aos infernos e uma permanência eterna na morte que nunca pára de morrer. Talvez seja por isso que o final de “In the bedroom” seja como um soco na cara: quando o personagem de Tom Wilkinson deita na cama e suspira melancolicamente, ele sabe que, mesmo vivo, sua alma está morta. O mesmo acontece com Danny, o anjo vingador da Irlanda que foi apenas manipulado para entrar no reino do Mal. Em ambos o que existe em comum é o fato de terem perdido o elo com a realidade simbólica do mundo e da vida, não tendo mais a capacidade de discernirem moralmente sobre o que se apresenta à sua frente e, enfim, não conseguindo mais fazer uma simples escolha ou tomar uma simples decisão.

“In the Bedroom” pode ser lido à luz dos acontecimentos pós-11 de setembro, mas isso seria reduzir muito a complexidade de uma obra-de-arte. O mesmo não se pode fazer com “Angel”, se alguém quiser comparar com a situação da Irlanda do Norte. Contudo, podemos ver estes filmes como registros de uma época onde, por incrível que pareça, a decadência espiritual atingiu tal ponto que, para muitos, a vingança se tornou um ato de justiça. Assim, uma guerra que poderia ser justa vira um elogio à tirania do Estado, a pena de morte se torna um instrumento legítimo para acabar com a violência e, por fim, a confusão entre os meios e os fins que muitos políticos estão realizando para sanar a “desigualdade social”. Será que estas pessoas esqueceram-se de Deuteronômio, em que Deus disse a Moisés: “Minha será a vingança”?

Pelo andar da carruagem, parece que sim. Vivemos num mundo repleto de mortos-vivos, onde o desespero, como diria Kierkgaard, é justamente não ter desespero nenhum. Ninguém parece saber o quão perto estamos daquela morte que mata de vez porque não é a que nos liberta deste mundo, e sim a que nos faz ficar cada vez mais presos a ele. Onde raios foi parar o mistério da esperança, aquele mistério de um silêncio frio que nos faz lutar até o fim para viver com alguma dignidade? Ninguém aqui é oráculo para dizer onde está, e se alguém fosse – quem teria a coragem de dizer?