O farrapo que se encerra?

fevereiro 25, 2010

Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica. Às vezes é estúpida. O leitor que a julgue. Acho que quem ofende os outros e os leitores é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até a irritação do amante rejeitado“.

Paulo Francis sobre Paulo Francis

Paulo Francis foi a prova definitiva da maldição que atinge o jornalista brasileiro: o aprisionamento do tempo. Obrigado a ter de comentar os assuntos do momento com a brevidade que o momento exige, Francis vivia numa encruzilhada para alguém com vastas ambições intelectuais. Mesmo para quem não o conhecia pessoalmente, e fizesse uma sutil análise psicológica desta personalidade complicada que foi Franz Paul Heinbron, estava claro que seu alter-ego (pois é o que Paulo Francis sempre foi) era uma fachada para o escritor que tentava surgir em cada linha, parágrafo e palavra de suas colunas.

Sua morte aliviou a burrice de muita gente. Para mim, no entanto, foi um fato lamentável. A primeira coisa que pensei foi: “Agora vai ser díficil ter um domingo que preste”. Domingo era o dia de Paulo Francis. Sabíamos que no Caderno 2 haveria o seu “Diário da Corte”, e que no canal de TV paga GNT veríamos “Manhattan Connection”, programa em que Francis dava o ar da graça, junto com Lucas Mendes, Caio Blinder e Nelson Motta. Na verdade, fui um fã tardio de Francis. No início, segui o caminho de muita gente – “Paulo Francis é um ignorante sem nenhuma educação” (insulto que, por seu pleonasmo, é um insulto à língua portuguesa). Mas, num domingo, li sua análise sobre Eduardo “Mogadon” Suplicy, um desses textos que ficam par a par com uma sátira de Swift, Mencken, ou Millôr Fernandes. O apelido “mogadon” se devia porque o senador era tão lento em seu raciocínio, e tão absurdo em suas propostas que ele só poderia estar tomando um tranquilizante com este nome, muito conhecido nos anos 50 no Rio de Janeiro, e que se aplicava em cavalos e mulas para acalmá-los. Mais cruel, impossível – mas não menos brilhante.
Este era um pequeno exemplo da qualidade que Francis tinha e que foi o que o tornou um grande jornalista: ele falava o que todo mundo pensa, mas tem medo de dizer. A expressão “não tem papas na língua” fica marcada na carne ao lembrarmos daquele sujeito de óculos de garrafão e voz de embriagado. E quando se fala que não tinha papas, entenda-se que ele podia falar de tudo, de um segundo para o outro, sem avisar. Lembro-me dele, em um de seus flashs no Jornal da Globo, chamando Bill Clinton de “Mr. Jeca”, e imediatamente fazendo uma ode ao verão de Nova York, cantando “Summertime” engraçadissímo.

Claro que essa figura cartunesca dava margem para piadas e assim quem era pedra acabava virando vidraça. No entanto, nunca teve um sinal de rancor de seus gozadores – dizem até que ele dava gargalhadas quando via a imitação dos humoristas do Casseta & Planeta. Seu senso de humor aparecia mesmo nos momentos mais tensos. Em 1964, nos primeiros dias de abril, enquanto os esquerdistas se desesperavam sobre quem seria preso ou não, Paulo Francis, trotskista empedernido na época, resolveu se esconder na casa de uma amiga, acompanhado por ninguém menos que uma garrafa de Queen Lace, os diários de Samuel Pepys, “Ana Karenina”, de León Tolstói, e “Três teorias sobre a psicanálise”, de Sigmund Freud. No meio de sua reclusão, Claudio Abramo, então editor da Folha de São Paulo, chamou Francis para procurar um fotógrafo que poderia estar preso. Sem saber o que fazer, ele aceitou a aventura. Ao chegarem no bairro onde o fotógrafo morava, Abramo disse que não sabia onde ficava a casa dele. Começou a gritar: “LENINE! LENINE! ONDE ESTÁ VOCÊ?”. Francis percebeu que os berros do amigo estavam provocando uma algazarra desconfortável. Apenas arrumou os óculos na ponta do nariz e resmungou: “Você acha apropriado gritar este nome na atual ocasião?”.

O humor de Francis era um resmungo, uma forma de ácido súlfurico que não o tornava um Boca do Inferno Parte Dois porque, parodiando o odioso Che Guevara, “tentava não perder a ternura”. Quem perdia a ternura eram seus inimigos e desafetos – de Tônia Carreiro à Petrobrás, vulgo Petrossauro. Francis foi responsável por deixar Paulo Autran, um homem relativamente calmo, irritado ao defender Carreiro de uma crítica teatral mordaz, em que escreveu: “Tônia é uma beleza de primeiro mundo, mas tem um talento de quinto”. Já a Petrobrás o ameaçou com um processo de indenização por dano moral, de acordo com as leis dos EUA, pedindo a absurda quantia de 100 milhões de dólares por causa de suas críticas à empresa estatal, o que acelerou o ataque cardíaco (erroneamente diagnosticado como uma mera bursite) que o fulminou em fevereiro de 1997.

Sua arte de fazer inimigos era tirar o máximo de proveito deles, o que o tornava, de certa maneira, uma espécie de charlatão. Em uma conversa com Pedro Sette Câmara, soube que Francis copiava o programa do Metropolitan Opera House quando se arriscava a escrever sobre ópera ou concertos de música clássica – e isso ficava claro na simples comparação de sua coluna com o texto do Met. Uma certa concessão necessária para alguém que gostava de fazer jornalismo, mas acreditava que seu negócio era literatura.

Ainda assim, nunca foi um mestre do estilo. Tinha a maldita mania de iniciar sentenças com pronomes relativos e, muitas vezes, parecia que escrevia sob efeito de um Seagram´s doze anos (leiam o seu confuso prefácio ao livro “12 Ensaios”, de Edmund Wilson). No entanto, havia uma sensibilidade bruta em sua prosa, algo nitidamente tomado das influências de Dostoiévski e Nietzsche, que exibem uma força infelizmente nunca lapidada pelo tempo. Observem este trecho de sua autobiografia “O afeto que se encerra”:

“Durante seis dias vi meu irmão mutilado, sofrendo o diabo, no excelente hospital de São Paulo, cujo nome esqueço, especializado em queimaduras. Se sobrevivesse, Fred perderia um braço, estropiado, já ficara cego de um olho. Os médicos me explicaram que dependia da capacidade dos rins de Fred que ele não morresse, ou seja, da eliminação das toxinas provocadas pelas queimaduras. Fred teve falhas nos rins. Eu segurava a perna dele quando deu aquele último arranque, duro, em que depois o tormento de nos sabermos vivos e vulneráveis se extingue. Antes de morrer, beijei-o a primeira, única e última vez, na testa. E pela primeira vez na minha vida consciente, o filho morto, abracei meu pai”.

Francis conta o suspiro derradeiro de seu irmão Fred, morto em um acidente de avião que o levou numa luta paranóica de mais de vinte anos, já que, para ele, a empresa de aviação Cruzeiro do Sul foi a principal assassina. Este acontecimento marcou sua vida de tal forma que mesmo no fim dela, ainda falava sobre o irmão e o acidente. Foi também o momento que se aproximou do pai, Adolpho, homem muito distante, pois ambos se empenharam na apuração do desastre. Quando o laudo concluiu que foi uma “falha humana”, Francis não se conformou, e em suas colunas no jornal “Última Hora”, “desceu o sarrafo na Cruzeiro do Sul”. “Minha intenção era destruir a ‘reputação’ da Cruzeiro, processá-la criminalmente e, se possível, levá-la à ruína. Meu pai se sentiu mal, na opinião dele, em ‘explorar o cadáver’. Parei somente por insistência dele, já bastante doente na época e carregado de culpas”, escreve em suas memórias. O que o episódio mostra, sobretudo, é a capacidade de Francis de se indignar, de não deixar arrefecer o espinho cravado na carne – algo que os jornalistas estão perdendo nos dias atuais. Junte isso a um vasto conhecimento intelectual e o leitor tem nas mãos uma bomba-relógio com os ponteiros desaparafusados.
Mas não era o lunático de plantão. Conforme o passar do tempo, Francis foi se amansando, mesmo com seu famoso ditado ao afirmar que estava “tecnicamente morto” por causa do baixo nível da cultura ocidental. Seu resmungo, de novo, passava a ser um riso, mas um riso que lamentava uma perda dilacerante. Não era somente a perda do irmão, nunca explicada; era também a perda do projeto falido, do projeto em que a literatura havia se tornado um mero sonho que não conseguiu abrigar as ambições de Franz Paul Heinborn. Em seu prefácio ao livro “Waal – O Dicionário da Corte de Paulo Francis”, organizado por Daniel Piza, ele escreve: “Confio em que meu humor me salve, quer dizer, que me facilite o que der e vier. Enquanto há vida se vai levando. Aproveitei o máximo. Devo dar graças ao destino que me permitiu viver confortavelmente do fruto do meu trabalho, que é mental. Minha cabeça é meu produto primário e minha indústria. Saí da caverna. É minha satisfação que partilho com leitores de cabeça limpa”. Há nesta declaração quase testamentária, um tom resignado, de ter aceitado os seus limites, de ter, enfim, compreendido que demolir os assuntos do dia-a-dia era uma forma de escapar da existência de uma ameba. Seu jornalismo era pedagógico nesse sentido, em que o leitor podia não gostar de suas opiniões, mas sabia quais eram elas e podia compará-las com as suas próprias – criando assim alguma síntese. Mas como todo jornalismo feito com vigor, caía no bom e velho beco sem saída da progressiva amnésia, e não é à toa que, para a nova geração de jornalistas, o nome Paulo Francis é algo distante, quase inacessível, prestes a se dissolver no tempo, pronto para se tornar um farrapo humano.

Isso é um destino comum no Brasil, um país que age como a porca que come os seus filhos. Além de dois volumes autobiográficos – “O afeto que se encerra” e “1964 – Trinta anos esta noite” -, Paulo Francis publicou dois volumes de ensaios, escreveu dezenas de prefácios, milhares de colunas, e três romances – “Cabeça de Papel”, “Cabeça de Negro”, e “Cabeça”, este último nunca publicado. É o projeto literário mais fracassado da história intelectual brasileira. Francis queria ser o Dostoiévski dos anos de chumbo e acabou sendo um romancista medíocre. Uma história sem pé nem cabeça, um estilo verborrágico, cheio de situações caricatas de pornografia, alusões pedantes – todos os motivos que fizeram os críticos de Francis urrarem de felicidade estão lá. Ele defendeu sua obra com unhas e dentes,alegando que tinha criado um delírio e devia ser interpretado como tal, mas não tinha jeito: os livros eram muito ruins.

A sensação de fracasso como romancista permeou todo o seu trabalho jornalístico nos anos seguintes. É a época do último Francis, que decide se auto-exilar definitivamente em Nova York, financiado pela Rede Globo, e dá constantes bananas ao provincialismo brasileiro. “Somos um país de jecas”, afirmava. Contudo, não hesitava passar as férias de verão no Rio de Janeiro, onde sempre era convidado para uma entrevista no Roda Viva da TV Cultura. Durante as férias de Natal ia sempre a Paris, onde se extasiava com a beleza da catedral de Notre-Dame e adorava escutar uma missa em latim. Para quem era fã de Trotski, isso era uma atitude assombrosa. Mas sabendo que Francis nunca foi dogmático em suas opiniões, apesar do suposto radicalismo, o que era mais inusitado era dar uma volta de 360 graus, e de socialista sonhador se tornar o mais implacável dos liberais – tão implacável que até Roberto Campos se assustava com o que Francis dizia.

Conforme o leitor lê este texto, as contradições que impulsionavam a vida de Francis são claras. Ele adorava declamar Walt Whitman em pleno Manhattan Connection, para confundir seu colega sempre certinho Caio Blinder: “I contain multitudes”. Esta variedade de personalidades dentro de uma máscara podia chegar a uma esquizofrenia estéril, mas o que lhe dava a sua unidade era um implacável senso de determinação. Ele sabia o que queria, sabia como chegar ao que queria – no entanto, só não conseguiu o que queria. Eis aí a tragédia de sua vida, a encruzilhada que transforma uma suposta caricatura numa tristeza ímpar. Na sua impossibilidade, Paulo Francis não é apenas o paradigma do jornalismo sem concessões; ele é um modelo da consciência do fracasso, mas também de sua superação.

O jornalismo é o relato dos fatos de um cotidiano que, um dia, torna-se-á história. O crítico cultural é obrigado a refletir sobre eles no calor da hora, sem a possiblidade de ver algo mais além do tempo atual. Os grandes jornalistas, como Samuel Jonhson, Jonathan Swift, George Bernard Shaw, H.L. Mencken, Edmund Wilson, Robert Hughes, Otto Maria Carpaux, Tom Wolfe, Guy Talese, Norman Mailer, Truman Capote, Gabriel Garcia Márquez e o próprio Paulo Francis, são capazes de ver os fatos e analisá-los atravessando o presente, independente de suas formações ideológicas e intelectuais. Há uma sub specie aeternis que liga estes sujeitos tão díspares, mas também um compromisso formidável com a inteligência do leitor. Eles nunca subestimaram o companheiro silencioso que ficava no outro lado da página, e o que mais queriam era que a irritação os consumisse, pois, como diria Philip Roth, “você precisa ficar irritado para começar a ver alguma coisa”. Francis exibia uma irritação considerável com o estado de coisas, e quando trocou seu esqueridismo por uma posição mais liberal, ele explicou sua decisão da maneira mais clara e direta possível: “O esquerdista é burro”. Para este tipo de jornalismo, a burrice é sinônimo de morte, e a pior morte possível: a do espírito. Mesmo com seu ceticismo (“Faz bastante tempo que me convenci de que a vida não tem pé nem cabeça, que religião é uma tentação emocional resistível, porque não faz sentido. E ideologias, waaal”), em contrapartida promovia uma liberdade de consciência que não deixava nada a dever a um Voltaire. “Não mudei muito desde que percebi que podia pensar sem que fosse mero reflexo de uma necessidade”, escreveu naquele prefácio curto e revelador de “O Dicionário da Corte” em 1996. “Olhar para si próprio como alguém de fora é uma sensação saborosa; de poder? Em parte sim, mas é também um prazer sensorial, estético e filosófico. O grande momento da minha vida foi quando percebi as possibilidades da imaginação. Foi como o macaco de 2001 ao descobrir o uso agressivo de uma ossada animal. Escritores me revelaram maneira de ver, de entender, de formular questões de comportamento e o próprio ato de pensar. A metáfora de Platão sobre a caverna, onde pobres diabos se adaptam à sua condição sem sequer notar o mundo rico e variado às suas costas, é o princípio da alfabetização intelectual”.

Francis aceita a complexidade do mundo e a única forma de retratá-la é através das “possibilidades da imaginação”. De novo, a ambição literária invade as brechas do seu projeto jornalístico. O fato de ter sido um escritor frustrado não o torna um fracassado convicto – talvez seja justamente por ter o dom particular da determinação de ultrapassar a prisão do tempo, característica marcante dos homens do espírito, que faz o seu jornalismo uma espécie de literatura. Nesse sentido, Paulo Francis pode ser considerado o nosso Karl Kraus. Seus chistes, boutades, e opiniões hilárias, fazem parte do repertório popular e qualquer um com dois dedos na testa vai querer saber qual era a sua visão de um determinado assunto. Mas, atualmente, são poucos que ainda têm este hábito. Com sua morte, Paulo Francis foi vítima da lavagem cerbral esquerdosa, que, pouco a pouco, coloca-o no nível de um pagliacci. Seus leitores sabem que ele foi mais que isso; contudo, o tempo aprisionou a obra de Francis em uma jaula estranha, em que a procura pela liberdade intelectual se torna a busca pela superação de seus limites, e esta superação fica no meio fio entre o esquecimento e a permanência da memória.

Francis era um sujeito divertido que podia cantar “Chiquita Bacana” com Nelson Motta com a maior cara do pau, mas a citação que sempre me lembrei foi quando ele criticou o filme “Razão e Sensibilidade”, com Emma Thompson, baseado no clássico de Jane Austen. Fã da escritora inglesa, Francis deu uma bronca em Caio Blinder e Lucas Mendes ao ouvir deles que Austen era boba e ingênua por escrever romances sobre moças e moços apaixonados, e seus amores não correspondidos. “Vocês são uma bestas!”, ele resmungou com um brado, “Não há dor mais cruel e profunda que a do amor em vão”. Era um momento de poesia no meio de um programa que sempre foi uma conversa de botequim. Com aquela resposta, pude ver, pela primeira vez, a humanidade trágica de Paulo Francis. Talvez ele fosse mais um sujeito que cantasse a famosa reclamação de Antonio Maria: “Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire”. Mas também era claro que não queria ser amado indiscriminadamente (afinal de contas, vivia muito bem com sua companheira, a também jornalista Sonia Nolasco). Queria ser apenas lido – era, como o próprio disse, “uma forma de existir”.

A obra-prima de Franz Paul Heinborn foi os seus quinze anos de “Diário da Corte”. Ao contrário de Karl Kraus, não há uma novela, um romance ou uma peça teatral que possa dar uma unidade de seu pensamento. O que se tem são retalhos brilhantes, mas, ainda assim, retalhos. Nada mais jornalístico, nada mais humano. Seria ele um mero farrapo? Yeats dizia que o intelecto do homem tinha de escolher entre a perfeição da arte e a desordem da vida. Francis queria a primeira, e acabou aceitando a segunda. Isso não o torna uma colcha de panos pobres; torna-o, isso sim, surpreendentemente próximo de nós. Por isso, não devemos encerrar nosso afeto por ele e jogá-lo na vala do esquecimento. Com todas as suas falhas, Paulo Francis, no fim, nunca perdeu sua dignidade. E na hora da realidade implacável isso é a única coisa que importa, e é também algo que o jornalismo brasileiro está prestes a perder. Waaal, que emocionante, diria ele deste texto. Mesmo com sua ironia cortante, a única resposta possível para recuperar esta mesma dignidade é dizer apenas: “Obrigado”.