E lembre-se que a profundidade é a maior das alturas…

fevereiro 25, 2010

É sempre complicado fazer uma lista dos melhores do ano porque, entre mortos e feridos (especialmente neste ano de 2001), os sobreviventes são poucos. Por exemplo, em matéria de filmes, nós tivemos filmes bons, mas nenhum espetacular, que fizesse a nossa ida ao cinema um verdadeiro ritual para um outro mundo um pouco mais pleno. Assim, a minha escolha nesse quesito foi a de selecionar três filmes que tivessem algo a ver com o Natal ou o Ano Novo, mas que também não tratasse essas duas datas daquela forma tonta que vemos sempre. É bom sempre lembrar que o Natal é o nascimento de Cristo, não uma data a mais para comprar presentes – e foi este nascimento que possibilitou a permanência da nossa existência até o presente momento.

Já no quesito livros, foi também um ano esquisito, dominado por obras infanto-juvenis, os “esotéricos” de sempre e poucos romances que valessem a pena ler para descobrir algum novo talento. Por isso, acabei escolhendo um clássico universal, uma reedição de um dos maiores poemas já feitos e um romance contemporâneo de um autor que merece ser descoberto nestas plagas, para quem quiser entender direito o que acontece nos EUA.

O ano de 2001 foi fabuloso para o mundo da música – em especial, para aquele gênero musical chamado rock-n´-roll. Foi um álbum de rock que captou com incrível precisão e assustadora clarividência o Terror de 11 de setembro, e foram suas variantes (e discípulos) que deram forma musical à desordem espiritual que comanda a mente dos alucinados que querem nos governar.
De resto, é melhor ler quais foram as minhas escolhas, e, para aqueles que não gostaram delas, é bom sempre lembrar Brás Cubas: que tomem um piparote nas orelhas. (adoro isso!!!)


CINEMA

“De Olhos Bem Fechados”, de Stanley Kubrick (Eyes Wide Shut, EUA/Inglaterra, 1999): Este é um dos filmes mais sinceros já feitos sobre o verdadeiro significado do Natal. O último filme de Stanley Kubrick tem todas as características de seus filmes anteriores: a análise fria da natureza humana, a obsessão pelo poder, a visão macabra do sexo. Mas o fato de se passar no Natal e contar a história de um casal que passa por um inferno existencial no meio de uma Nova York fantasmagórica dá um outro sentido à película. Na verdade, é o testamento de um homem que sabe que vai morrer e decidiu fazer sua ode ao Espírito que vence a vida danificada. Nada mais natalino, nada mais cristão. Você pode não gostar de Kubrick, pode achar Tom Cruise patético (o que é uma verdade) e Nicole Kidman mais uma bonequinha de luxo, mas não pode negar o fato que este é um filme profundo, com múltiplos significados e não pode ficar à beira do esquecimento.

“Cortina de Fumaça”, de Wayne Wang e Paul Auster (Smoke, EUA, 1996): Para lembrar como era Nova York antes do Terror de 11 de setembro. Esta é uma das mais bonitas histórias de Natal já feitas, e a melhor – sem nenhum pieguismo, pregação ou sermão de qualquer espécie. Muitos vão me xingar ao ver algo cristão numa história em que o sujeito engana uma velha cega e rouba uma máquina fotográfica, mas o que Paul Auster quer mostrar é a ambiguidade deste mundo e como algo ruim pode se tornar, no fim, algo bom. Além disso, é uma agradável meditação sobre a ocorrência do acaso e das coincidências nas nossas vidas, com grandes interpretações de Harvey Keitel e William Hurt. E como se isso não bastasse, tem Tom Waits na trilha sonora, cantando a antológica “Innocent When You Dream”.

“Cantando na Chuva”, de Stanley Donen e Gene Kelly (Singin´in the Rain, EUA, 1956): O último grande musical é também o maior antídoto contra a tradicional depressão que ataca qualquer um que preste nas festas de fim de ano. Porque não há algo mais depressivo do que ver o ano que passou e que, de novo, o ano que vem pouca coisa mudará. “Cantando na Chuva” resolve esse problema em menos de duas horas e sem insultar a sua inteligência ou optar pelo mundo dos sonhos. Ao contrário, é um filme que faz a defesa da realidade contra o reino da ilusão, e de uma forma engenhosa. Gene Kelly, Donald O´Connor e Debbie Reynolds fazem as coreografias mais sofisticadas já vistas, e com uma simplicidade rara. É um filme que lava a alma e faz você encarar o próximo ano com alguma esperança.


LIVROS

“A Divina Comédia”, de Dante Alighieri: Dante é Dante, e “A Divina Comédia” é um dos monumentos que o leitor deveria ler sempre, especilmente nesses momentos em que a desordem quer imperar. A história de salvação do poeta Dante, guiado por Virgílio, para chegar ao Paraíso e encontrar sua amada Beatriz nos fascina até hoje, porque mostra um poema que sempre se questiona na sua linguagem, retrata uma época muito parecida com a nossa (ou será que todas as épocas se parecem?) e nos ensina que a vida, apesar de todo o som e fúria que os idiotas querem nos mostrar, tem um sentido e um propósito: Deus. Poema cristão por excelência, “A Divina Comédia” é a prova de que a humanidade serviu para alguma coisa.

“Elegias de Duíno”, de Rainer Maria Rilke: Diz a lenda que Rilke escreveu boa parte de suas Elegias na mesma torre em que Dante teria escrito o Inferno de sua Comédia. Verdade ou não, as “Elegias de Duíno”, agora relançadas pela Editora Globo na tradução de Dora Ferreira da Silva, está para o século XX o que Dante foi para a Idade Média. Somente Eliot e Yeats podem se equiparar a tamanha limpidez poética. Preciso e vago, terno e assustador, esperançoso e pessimista, Rilke conseguiu com estes poemas celebrar a grande função da poesia: no meio do abismo, cantar é sempre uma forma de vitória.

“O Arco-Íris da Gravidade”, de Thomas Pynchon: Cada país tem as Elegias de Duíno que merece, e foi este escritor que não dá entrevistas, não tira fotos e lança um livro de sete em sete anos que fez isso pelos EUA. Publicado em 1973, “O Arco-Íris da Gravidade” pode parecer, por baixo de seu estilo túrgido e repleto de referências pop, uma mera bíblia da paranóia, mas numa leitura mais atenta percebe-se que Pynchon criou a elegia sobre a perda da transcendência e, por um estranho paradoxo, a procura por ela. É um livro de leitura díficil, mas depois de superados os primeiros obstáculos, ninguém fica imune a uma entropia tão sedutora.


MÚSICA

“Love and Theft”, Bob Dylan: Sem dúvida, o grande álbum de 2001. Lançado justamente no dia 11 de setembro, “Love and Theft” forma, junto com “Time Out of Mind” (1997), a atual fase de Dylan, em que ele é o spoudaios do rock. Uma viagem por uma América sombria e enigmática, com um senso de humor perverso que mostra, aos 60 anos, que tudo o que vier agora é lucro. Há também espaço para canções de amor e de adeus, como “Sugar Baby”, o remorso esperançoso (se isso pode existir) de “Mississippi” e o apocalipse vislumbrado em “Highwater”. Simplesmente extraordinário.

“No More Shall We Part”, Nick Cave and The Bad Seeds: Com este álbum, o australiano Nick Cave se tornou o crooner do desespero, o legítimo sucessor de Leonard Cohen. É tristeza faixa-a-faixa, da benevolência de “As I Sat Sadly By Her Side”, passando pela redenção de “Hallellujah” e terminando no exílio de “Darker with the Day”. Mas não pense que este é um disco para depressivos. Na realidade, é uma intensa meditação das relações do homem com Deus, e depois do lirismo de “The Boatman´s Call”, Cave realiza sua obra mais coesa e legítima, não deixando de lado o passado ruidoso dos Bad Seeds na furiosa “Oh My Lord”.

 “Let It Come Down”, Spiritualized: O nome parece ser de grupo gospel, mas é um engano. É o projeto megalomaníaco de Jason Spaceman, multinstrumentista que tem como sonho ser o Phil Spector do século XXI. Orquestras suntuosas, paredes de guitarras, vocais angustiados, corais grandiloquentes: tudo em “Let it Come Down” tende ao exagero, mas é justamente esse exagero que dá a dose de loucura que uma obra de arte precisa. E é no meio da insanidade que nasce, surpreendentemente, a sinceridade da vida do espírito.

“Amnesiac”, Radiohead: O que Thomas Pynchon fez para a literatura americana, Thom Yorke & Cia. fizeram para a música pop. Paranóia, desilusão, vazio espiritual – tudo isso está retratado nos cinco discos desta banda inglesa. “Ok Computer” e “Kid A” podiam ser discos excelentes e incompletos, mas é com “Amnesiac” que o Radiohead mostra a que veio. Canções como “Pyramid Song”, “You and Whose Army” e “Like Spinning Plates” falam de uma descida aos infernos que tem muitos sons, e todos eles muito estranhos e surpreendentemente belos.

“O Escritor Por Ele Mesmo”, Bruno Tolentino: Este disco é somente Bruno Tolentino lendo seus poemas, sozinho, errando e gaguejando às vezes, mas sempre com aquela dor justa que sua obra mostra em livros como “As Horas de Katharina” e “A Balada do Cárcere”. O desprezo que a crítica cultural dá ao homem que escreveu “Ao Divino Assassino” (um dos maiores poemas da literatura brasileira), mostra que o Brasil deveria ser expurgado do planeta. Quando Tolentino declama “Vou prosseguir e vou sobreviver”, não há mais nada a fazer exceto curtir o sofrimento e deixá-lo passar. Se você não tem, compre; e se você não tem como comprar, se vira. É um disco indispensável.

 “When The Pawn…”, Fiona Apple: É sempre bom ter uma mulher na lista. P.J. Harvey, Tori Amos e Fiona Apple provam que as fêmeas não são fragéis, e muito menos fúteis, como afirma Hamlet. “When the Pawn…” (na verdade, um poema quilométrico que tomaria o espaço desta coluna; é por isso que o título dela é um de seus versos) é o segundo álbum de Apple, uma moça de 23 anos que mostra uma maturidade impressionante. Ela não hesita em insistir nos seus erros (“I´m gonna make a mistake/ Gonna make another detour”, canta na irônica “A Mistake”) ou expor sua ternura (na delicada “Love Ridden”). Mas as duas melhores canções deste álbum mostram aquela condição obscura que Dante tanto fala quando se trata de uma mulher e de um homem: “The Way Things Are” (“How can I fight when we´re on the same side?/ How can I fight beside?”, declama com uma segurança trágica esta perguntinha impertinente) e “I Know” em que, diante do silêncio do amado, ela só pode concluir que qualquer “eu te amo” é obsoleto. Uma pérola a ser redescoberta.

“Fragments of a Rainy Season”, John Cale: O Velvet Underground não era somente Lou Reed. Era também John Cale, o músico que fez esse álbum que tem todas as qualidades de um bom disco de Natal: triste, alegre e lembra uma paisagem coberta pela neve. Composições sobre poemas de Dylan Thomas, canções sobre medo e morte, todas encadeadas por um piano delicado e sem firulas. É de uma beleza terrível, e a grande prova disso é a versão assustadora de “Hallellujah”, o clássico de Leonard Cohen, que nos coloca frente-a-frente com a realidade implacável: a de que todos nós, algum dia, teremos de morrer.


“Foi assim o nascimento de Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, mas, antes que se unissem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. Por ser José, seu marido, um homem justo, e não querendo expô-la à desonra pública, pretendia anular o casamento secretamente. Mas, depois de ter pensado nisso, apareceu-lhe um anjo do Senhor em sonho e disse: ‘José, filho de Davi, não tema receber Maria como sua esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e você deverá dar-lhe o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo de seus pecados’.”

(Mateus 1: 18-21)