As veredas da Graça

fevereiro 25, 2010

Só a graça de Deus, só a operação da graça,
imerecida e desabando sobre a raça
como o sol sobre o mar, sem condição nenhuma,
e sem outra razão que a de entregar-se à espuma,
penetra esse porão, destrói esse impossível
e constrói a alegria, como a luz, do invisível.

Bruno Tolentino, “A Garça e o Equilibrista”, do livro “Os Deuses de Hoje.

Todos os críticos brasileiros já escreveram algum texto sobre “Grande Sertão: Veredas”, e nenhum conseguiu dissecar até o fim sua implacável profundidade. Verdadeiro marco de exceção na alma brasileira, a obra de João Guimarães Rosa é como o monolito de “2001”: você pode fazer de tudo para conseguir entendê-lo, mas para cada certeza adquirida, ganha-se uma dúvida mais comprida. Qual é a causa principal deste enigma? Talvez a resposta esteja no fato de que Rosa trata, em todos os seus livros, daquele tema que uma pessoa preocupada com o mundo do espírito procura resolver na série de contradições que aparecem a cada momento da sua vida: a Graça Divina.

“Grande Sertão: Veredas” é, antes de tudo, um épico sobre a Graça, e poucos escritores tentaram compreendê-la na beleza de seu mistério como Guimarães Rosa. Nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, no dia 27 de junho de 1908, Rosa transformaria o sertão mineiro de sua infância numa nova mitologia em que a linguagem tem o dever de unir os escombros do mundo. Formado em Medicina, mas desde de jovem mostrando um talento ímpar para a criação literária (ganhou um concurso de contos da revista “O Cruzeiro” aos 18 anos), ele sempre se mostrou como um rapaz de temperamento comedido, discreto, ao mesmo tempo que era capaz de ter fervores místicos e intuições supersticiosas. Deparou-se com a inevitabilidade da morte enquanto trabalhou como médico nas vilas e, ao concluir que não podia fazer nada para evitar tamanha dor, resolveu prestar o Itamaraty e se tornou diplomata. Mesmo assim, não desisitiu da literatura: ganhou o prêmio de melhor livro de poesia do ano de 1936 por “Magma” e ficou em 2° lugar no concurso de contos Humberto de Campos, promovido pela Livraria José Olympio, pelas histórias que dariam origem, dez anos depois, à “Sagarana”, sua verdadeira estréia no mundo literário.

Publicado em 1946, “Sagarana” é composto de contos notáveis, como “O Burrinho Pedrês”, “Sarapalha” e “São Marcos”, em que o regionalismo mineiro é recriado na força de uma linguagem que capta a oralidade da estória, da fábula, do próprio ato da criação. Na obra de Guimarães Rosa, a literatura é um meio para refletir-se sobre si própria, mas também sobre o mistério do Verbo. Neste mesmo livro, temos a primeira grande obra-prima rosiana: “A Hora e Vez de Augusto Matraga”. Conto essencial para se entender o futuro “Grande Sertão”, fala de um homem que, depois de uma vida repleta de pecados, cai numa emboscada e, milagrosamente, se salva. A partir daí, ele decide refazer sua vida, numa busca desesperada pela salvação que culmina com seu sacrifício contra um bando de jagunços. Narrada neste resumo esquemático, parece mais outra história de catequese, mas Rosa eleva tudo isso pelo feitiço da linguagem. Observem esse trecho:

“Quando chega o dia da casa cair – que, com ou sem terremotos, é um dia de chegada infalível, – o dono pode estar: de dentro, ou de fora. É melhor de fora. E é a só a coisa que um qualquer-um está no poder de fazer. Mesmo estando de dentro, mais vale todo vestido e perto da porta da rua. Mas, Nhô Augusto, não: estava deitado na cama – o pior lugar que há para se receber uma surpresa má”.

Qualquer revisor entraria em pânico com este parágrafo. Contudo, é nesta construção de ritmos irregulares, calcados na fala, que Rosa vai aperfeiçoar sua sintaxe, livro após livro. Com “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, fica claro que o tema principal que ele perseguirá, como um caçador que procura a mais rara das onças será o da Graça, e da Graça vista não como uma dádiva que nos leva fazer somente o bem, mas como o maior desafio da humanidade.

Guimarães Rosa só voltaria nas estantes das livrarias dez anos depois. Existem vários anos importantes na literatura brasileira: 1881 para a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”; 1922 para o livro “Libertinagem”, de Manuel Bandeira; 1945 para “A Rosa do Povo”, de Drummond. Mas ninguém imaginava que, no ano de 1956, Guimarães Rosa daria dois monumentos da alma – “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”.

“Corpo de Baile” é uma dessas obras que um bom leitor fica fulo ao saber que ela se mantém escondida no baú da literatura brasileira. Assim como “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, ou “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, “Corpo de Baile” mostra o seu autor em pleno domínio dos meios para atingir o fim supremo, que é a prova de uma ordem maior que rege nossa vida através do mais sublime (e também o mais simples) dos atos: a de contar estórias – assim mesmo, com e, um neologismo que Rosa criou para diferenciar seu mito da tirania da História.

Composto por sete longas novelas, o livro era um ciclo de travessia em que havia de tudo um pouco: romance de formação (com “Campo Geral”, a famosa estória de Miguilim, que será o Miguel adulto em “Buriti”, a última novela do livro), contos de amor (“Uma estória de amor”, em que nos é apresentado o vaqueiro Manuelzão, e “A estória de Lélio e Lina”, peculiar por retratar o caso entre um jovem e uma senhora da terceira idade) e sagas de aventura (com “O recado do morro” e “Cara-de-Bronze”, este uma prova do virtuosismo de Rosa ao lidar com a metalinguagem). Em todos eles, de novo, a procura pela Graça, por este dom inusitado que, quando entra no vão mais oculto da alma, preenche-a com uma determinação descomunal e termina na mais completa das ressurreições.

Estas características podem ser encontradas no personagem-síntese de Guimarães Rosa: Riobaldo Tatarana, o herói de “Grande Sertão: Veredas”, lançado também no ano de 1956. A crítica nunca o assimilou direito, e a maior prova disso está nas disparatadas análises que tentam classificá-lo como “pós-moderno”, “gnóstico”, “mítico”, “revolucionário”, etc e tal. Na verdade, o romance é um poema lírico que não deixa nada a dever a uma “Odisséia”, a uma “Ilíada”, a uma “Comédia”, ao um “Ulysses” e a uma “A Morte de Vírgilio”. É também um poema cristão que acrescenta novas particularidades aos assuntos da redenção, do pecado, de Deus e, em especial, do Diabo, inserindo-se na mesma tradição de um Goethe, Nietzsche, Thomas Mann e Christopher Marlowe.

Como uma obra desse porte pôde ser feita neste fim do mundo que é o Brasil, eis aí um dos mistérios que deixamos para o outro mundo. A razão da existência deste monolito é ninguém menos que o próprio Guimarães Rosa que, reelaborando cada palavra da língua portuguesa e reestruturando-as nas línguas greco-latinas e germânicas, implodia qualquer noção tradicional de romance (o mesmo foi feito trinta anos antes com o “Ulysses”, de Joyce). A estória, contada – ou melhor, ruminada – pelo ex-jagunço, agora fazendeiro, Riobaldo, tem um estrutura dupla: sua fala tem o ritmo de um rio (seu nome anuncia isso), mas o modo de fabular é de um redemoinho que ora é uma serpente, ora é uma espiral – imagens simbólicas que terão múltiplas ressonâncias neste épico sobre o perigo de viver nas veredas da Graça.

E não pensem que é um romance chato, com complicações metafísicas que travam a leitura – isso é a má-fama que os uspianos espalham como uma praga. A metafísica impregna cada linha de “Grande Sertão: Veredas” e é isto o que o torna uma das aventuras mais movimentadas já feitas. Tem romance, tiroteio, traição, julgamento, pacto com o Demo, assassinatos, ciladas e mais de mil e uma reviravoltas (todas devidamente divulgadas pelos críticos, apesar dos pedidos insistentes de Rosa que não fizessem isso, em especial o final) que levam o leitor a uma iniciação espiritual que, quando se chega na última página, a experiência se revela transformadora.
O livro começa com uma palavra decisiva: “Nonada”. “Não foi nada não, seu doutor” – é o que Riobaldo Tatarana diz a um homem da cidade que, ao passar pelas suas terras, pensou estivesse acontecendo um tiroteio, mas era Riobaldo treinando sua pontaria. O tiro dá início ao um monólogo que se estenderá por quase 600 páginas e que, no fim, se revelará como a biografia deste jagunço que viveu uma estória tão inusitada.

Inusitada porque se trata de uma “imitação de Cristo” no sertão mineiro, com seus desertos, riachos traiçoeiros, matas densas, montanhas que rasgam o céu e a luz do sol. Riobaldo é um sujeito que, desde de criança, tem uma profunda relação com Deus, depois de uma epifania que lhe ocorreu quando pequeno. Acompanhado por sua mãe, ele solta-se da mão dela para seguir um menino de aparência andrógina na beirada do rio São Francisco. Ambos entram num barco que percorre o rio e, ao se depararem com dois ladrões, o menino defende Riobaldo com um estilete. Na volta, um leve aperto de mãos provoca uma comoção em Riobaldo – uma comoção que ele sentiria anos depois com o reencontro com este mesmo menino, agora chamado Reinaldo.

A cena do toque entre as mãos será a fagulha de eternidade no coração de Riobaldo – e um dos pontos polêmicos do livro. O misterioso Reinaldo se tornará Diadorim, filho de Joca Ramiro, líder do maior bando de jagunços do sertão, e a paixão secreta de Riobaldo. A natureza homossexual deste amor, mesmo com seus desdobramentos surpreendentes (e que viram a estória pelo avesso), é uma amostra de como Guimarães Rosa estava obececado pela contradição que reinava no espírito humano. Riobaldo ama Diadorim, mas o amor deste pelo último não impede que Otacília, a dama prometida de Tatarana, seja aquela que lhe dará a derradeira paz. Diadorim é, se for visto pela realidade simbólica pelo qual o livro inteiro é construído, é o Virgílio de Riobaldo, o guia que o toma pela mão carinhosa através das veredas tortuosas do sertão. O que poderia ser uma apologia da perversão é a ajuda rumo à ascensão e à totalidade do ser.

Riobaldo entra no bando de Joca Ramiro depois de ficar fascinado com a liberdade dos jagunços em relação às coisas do mundo. Aprende a manejar armas de fogo com tamanho afinco que todos falam que ele “atira com o sprito”. Seu respeito nesta sociedade hierarquizada, que nos remete à ordem dos cavaleiros da Idade Média (neste aspecto, Rosa apresenta uma visão romantizada da bandidagem, ainda que ela seja contada por um deles), cresce conforme Diadorim o faz mais próximo de seu pai, em guerra com outro jagunço, Zé Bebelo, aliado das forças do Governo da Primeira República.

A vida de jagunço é revelada camada após camada como uma vida repleta de escolhas morais. É aí que Riobaldo se confronta com o problema do Mal: O que faz o Diabo num mundo que foi criado por um Deus que quer somente o nosso bem? Será que o Diabo, o Demo, o Cão, o O, a Serpente, o Cânhamo realmente tem algum poder que possa competir com o de Deus? Como Riobaldo já possui a visão de eternidade, ele nunca venderá a alma ao Diabo, mas entrará em uma luta sem trégua que se complicará ainda mais com a traição do jagunço Hermógenes ao chefe Joca Ramiro.
Cada um tem seu próprio demônio, e Hermógenes, com seu bando de judas, será o ápice de uma luta pelo poder que começou numa das melhores cenas do livro, a do julgamento de Zé Bebelo por Joca Ramiro. Bebelo é capturado pelo grupo de Ramiro e é na hora da dar a sua sentença – que é a liberdade – que Joca Ramiro prova a sua soberania em harmonia com as leis divinas. Hermógenes será justamente a corrupção destas leis, denegrindo a ordem em função da simples pilhagem. Já Zé Bebelo que, no futuro, por uma dessas ironias, acaba virando o sucessor de Ramiro no bando, tem noção de suas limitações como líder e apenas faz a transição para o líder final, aquele que conduzirá os jagunços à última batalha de suas vidas – e este líder será o próprio Riobaldo Tatarana.

O leitor deve perceber, ao ler “Grande Sertão:Veredas”, que Guimarães Rosa está desfiando o seu crepúsculo dos deuses. É o fim de uma era – aliás, o leitmotiv central de todos os grandes épicos criados no século XX, em que nem mesmo “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R.Tolkien, escapa desta tradição. A razão para tal acontecimento tão fatalista é que Rosa percebe que o Brasil (e também o mundo) ruma para uma realidade em que o homem se torna um animal urbano, e esta condição material leva à conseqüente secularização da alma. Eis o ponto de contato entre o famigerado capitalismo e o tolo socialismo: ambos são ideologias materialistas, em que o ser humano é visto como um produto de compra e venda ou como um resultado da luta de classes. Qualquer possibilidade de transcendência é negada, e isso é uma das intenções do Diabo: impedir o encontro com o divino para que o homem seja apenas mais um verme na hora da sua morte. O crepúsculo dos deuses na visão de Guimarães Rosa, no entanto, é também visto como o início de uma nova fase na vida espiritual, que não é em hipótese nenhuma a Nova Era propalada pelos “esotéricos” imbecis, mas o momento de ressurreição em que teremos o aprofundamento deste mistério que é a vinda de Jesus Cristo.

Dizer que “Grande Sertão: Veredas” é uma obra de revelação parecerá uma blasfêmia para muitos. Contudo, se você chegou até aqui neste texto, deve levar em conta que é um livro, no mínimo, inspirado. Não estamos falando em procedimentos paranormais a lá Chico Xavier. Estamos falando daquele momento em que o escritor, imerso no mundo difuso do espírito, tem a consciência submersa no confronto entre ações que o levam para cima ou para baixo. É nesta situação que ele pode captar, como poucos, o que realmente está acontecendo com a natureza do mundo e do próprio ser humano – ocorrências que não se limitam ao mero curso da História, mas à existência religiosa, em que Deus quer nos mostrar, de qualquer forma, que a salvação é possível.

Riobaldo tem um profundo temor por Deus, mas não hesita em saber como será o Diabo quando em combate. Martinho Lutero dizia: “O Diabo não suporta ser confrontado ou zombado”. Pois é o que faz Riobaldo no momento que decide encontrar com o Cão numa encruzilhada no meio de um riacho, para ver se o bicho é um “nonada”. É um dos momentos mais terríveis da literatura brasileira, uma cena insólita por misturar o gótico do pacto faustiano com a descrição plástica de uma natureza que, na sua essência, reflete as vontades do Criador – e de um Criador que dá o livre-arbítrio ao homem para que ele faça o que quiser, inclusive flertar com o mal.

Muitos estudiosos vêem o problema do Mal como algo oposto ao Bem, como o contrário do Bem, o Nada negando o Todo. Esta é, alías, a tradicional visão católica, amparada por Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. No entanto, em “Grande Sertão: Veredas”, como também no Livro de Jó, no Apocalipse, no “Fausto” de Goethe, nas “Rime Petrosi” de Dante e nas obras de Eric Voegelin e Carl Gustav Jung, o Mal não é um caminho ao contrário e sim uma alternativa. Seu fascínio é crescente, sua sedução é ampla e seu fim é rápido: é por isso que o homem se atiça tanto ao lidar com o Demônio – ele é um negociador honesto, mas sua honestidade custa o que temos de mais sagrado: a alma.

Por isso que se pode explicar fenômenos que deram ao século XX o apelido de o mais sanguinário da nossa existência, como o nazismo e o comunismo, irmãos gêmeos em que a Dama Idéia foi a mãe comum, e Deus – bem, Deus foi o melhor dos pais, deixando a vida tomar conta das rédeas da situação. A sorte – ou o fado – foi que essa situação tinha uma direção, um sentido e um propósito que, por incrível que pareça, terminavam com a vitória dos justos e com a permanência do Bem. Em outras palavras: todos têm direito à segunda chance, todos podem ressuscitar suas vidas, mas a mudança na unidade implicava em morte, e para enfrentar a morte temos de descobrir dentro de seu espírito a vereda do mal, da perdição – enfim, o próprio inferno.

Riobaldo Tatarana não é nenhum teólogo de marca maior, muito menos um jornalista pedante como este tentando imitar São João da Cruz, mas ele cumpre todas estas metas de purificação. O percurso apresentado por Rosa tem sua simetria não só em Cristo, como também em Dante Alighieri, na sua “Comédia”, exemplo supremo do modelo de “imitatio Christi”. Se Dante divide de maneira ordenada o Inferno, o Purgatório e o Paraíso como degraus sucessivos na história da salvação, Guimarães Rosa, com seu gosto pelo paradoxo, embaralha todos os conceitos, sem, contudo, se esquecer que o fim é repleto da melancolia da justiça. É o velho e bom “mundo de pernas para o ar” que São Pedro simbolizou com sua morte, ao ver que não era digno de morrer como Jesus e, com este ato, botou alguma ordem em algum lugar.

Depois do seu encontro com o Demo – em que nada absolutamente acontece -, Riobaldo tem a sua primeira surpresa: é escolhido para ser o chefe do bando até a batalha com Hermógenes e os judas. A tentação do Poder o atinge em cheio, e ele aparenta se tornar um outro homem, com outro nome, “Urutu-Branco”, representando uma cobra de bote certeiro e que – detalhe dos detalhes – tem uma cruz marcada na testa. Logo em seguida, vem a tentação de decidir sobre a vida e a morte do Outro: Riobaldo deve matar o primeiro que aparecer na sua frente. Temos então uma série de situações em que ele escapa com extraordinária astúcia deste estranho pacto e termina por maltratar – mais um detalhe relevante – um jumento.

Há também a tentação do sexo, representado por Diadorim. Numa agudeza psicológica que somente os grandes escritores possuem, Rosa nos leva dentro do tormento de Riobaldo, mesmo com seu estilo sutil que descreve as ações de Diadorim como frágeis e delicadas (índices da revelação futura que mudará por completo a vida de Tatarana). Ao mesmo tempo, a presença de Otacília contrabalança o inferno sexual de Riobaldo, dando espaço para um pouco de luz no seu deserto – literal e metafórico.

Essa estória cheia de minúcias, contada em um ritmo lento, elegíaco, ruminante, culmina com a batalha final contra os judas de Hermógenes, onde Riobaldo, paralisado pelo medo, quase é assassinado se não fosse por Diadorim, que mata Hermógenes e morre esfaqueada, libertando o seu amor do ciclo sanguinário de morte e pecado (e, sim, é também neste momento que acontece a grande surpresa do livro que, respeitando o pedido do autor, não será revelada aqui – mesmo com meio mundo sabendo disso). E é no contar da sua vida, que se torna em si própria a estória de uma História, o mito de um novo mito, que Riobaldo Tatarana encontra o fio comum que liga os fatos aparentemente díspares de sua trajetória e que dá o sentido que sempre buscou no meio das veredas do grande sertão do mundo.

O título “Grande Sertão:Veredas” significa justamente isso: as veredas da Graça e da danação estão dentro do sertão. O Bem e o Mal fazem parte da nossa condição e não há como viver sem um ou o outro. Neste romance-poema existem dois refrões, que Riobaldo usa como mote: “O sertão está por toda parte” e “Viver é muito perigoso”. O tempo todo há uma luta por nossos espíritos em que os demônios são, na verdade, uma ínfima parte. “O Diabo não há”, conclui Riobaldo. Ele é “nonada” – o que existe é travessia. E é nessa travessia que o homem deve fazer suas escolhas a cada segundo que passa e rezar para que elas consigam distinguir as trevas da claridade. Para isso, é sempre bom ter um pouco da Graça, esse mistério que, apesar de ser pleno, é díficil mantê-lo. O épico de João Guimarães Rosa mostra que o destino do espírito é a plenitude e a unidade do ser, na total apreensão da realidade divina. Quem prega o contrário, mesmo que seja com as melhores intenções (se isto for possível), descerá ao mais profundo dos infernos. A luz não é para todos, somente para aqueles que podem suportar a beleza de seu ofuscamento.