As toupeiras, os trouxas e os mortos

fevereiro 25, 2010

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

W.B.Yeats, “The Second Coming”

É interessante notar, através de uma série de fatos aparentemente díspares que envolvem a imprensa brasileira, como está doente o espírito deste país. Vamos ao primeiro deles. No dia 1° de dezembro de 2001, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, deu uma festa de arromba para comemorar o aniversário de seu namorado, o assessor especial Luís Favre. Os convidados da distinta comemoração eram mais de duzentos, a maioria companheiros da prefeita no Partido dos Trabalhadores, sindicatos, movimentos esquerdistas. No cardápio, caviar, quitutes brasileiros e franceses; na carta de bebidas, vinho, uísque e champagne.

Enquanto a festa acontecia, atrás dos muros da casa da prefeita, cerca de 15 fotógrafos e repórteres esperavam por alguma luz que os ajudassem a fazer uma matéria melhor do que a esperada. Eles afiavam os narizes cada vez que um carro chegava, para ver se lá havia algum venerável petista. Foi assim que abordaram, sem cerimônias, Luís Inácio Lula da Silva dentro de seu Gol classe-média. Foi assim que travaram uma conversa amistosa com Aloízo Mercadante. Foi assim que bateram papo com o presidente da Câmara dos Vereadores, José Eduardo Martins Cardozo, que revelou meio no “in” e meio no “off”, que seu presente a Favre seria um exemplar de “Baudolino”, o novo romance de Umberto Eco. E também foi assim – esperando pelo milagre naquela noite escura e fria da alma paulistana – que, de repente, não mais que de repente, apareceu Luís Favre, armado com uma bandeja com taças de refrigerante, todo sorridente, afirmando aos repórteres, agora sim todos animados: “Isso é para deixar bem claro que eu não tenho nada contra vocês”.

Os detalhes acima foram relatados pelo jornalista Ivan Finotti, numa reportagem muito divertida, publicado no jornal eletrônico no.. Pode parecer divertido em um primeiro momento, mas depois de alguma reflexão percebe-se que estamos no meio de uma tragédia, em que os personagens principais são os jornalistas que se julgam independentes, imparciais, criteriosos, firmes, politizados, conscientes de sua função na sociedade, mas não passam de simples toupeiras. Isso mesmo, toupeiras. No Brasil do século XXI, a última profissão romântica (apud Alberto Dines) virou uma profissão de servidor escrachado, em que o que deveria ser independência ficou nas mãos de uma ideologia esquerdista e de um Leviatã implacável.

É fácil você distinguir uma toupeira de um jornalista de verdade. Em primeiro lugar, o jornalista de verdade tem uma opinião firme sobre algumas coisas, nunca sobre todas as coisas. Ele é o primeiro a admitir suas limitações. Por isso, ele estuda constantemente, mesmo sob a pressão da redação, dos patrões e seja lá de quem fôr. Em segundo lugar, o jornalista de verdade não é filiado a partido nenhum, muito menos em instituições religiosas ou governamentais. O motivo é simples: independência e fidelidade ao fato, o que é muito diferente de imparcialidade e critério na hora de apuração, duas características próprias dos robôs e das amebas. O que dita a realidade é o fato, e a percepção da realidade não pode estar obstruída por desejos partidários ou políticos. Ela deve estar clara e limpa, apoiada somente nas bases morais de uma vida que se dedica, mesmo com seus altos e baixos, a acrescentar alguma coisa na consciência humana.

Já as toupeiras, invertem essas noções como cuecas sujas após uma noite em um bordel na beira de estrada. Na verdade, não há muita diferença entre uma toupeira e um prostituto. Os jornalistas-toupeiras são os vendidos por excelência: gostam de ser politizados, adoram os movimentos de oposição, fazem suas rezas involuntárias ao Estado, acham que sabem de tudo, de política à biologia, passando pela física quântica. Enfim, acreditam que eles próprios são deuses, juízes de uma sociedade doente pela exploração do capitalismo, em que eles denunciam, investigam e condenam entre uma imagem e outra, uma palavra ali e uma palavra acolá, uma manchete à direita e uma manchete (especialmente) à esquerda.

As toupeiras também são reconhecidas por suas indumentárias de estudantes universitários. Com freqüência, fumam um baseado para diminuir o estresse da redação. Xingam sempre o dono do jornal e o editor que o representa. Reclamam do seu salário de fome. Reclamam da pauta que lhe deram. Reclamam que não há espaço para negociar uma matéria. Enfim, as toupeiras reclamam de tudo. Na hora de fazer a matéria, cospem nos milionários e na classe média (mesmo com a maioria fazendo parte desta casta), e simpatizam com os pobres, em especiais os excluídos e os bandidos, sempre vistos como vítimas do sistema.

Um dos exemplos acontece aqui em Campinas, cidade deste jornalista que vos escreve, governada pelo bando de alucinados que é o PT. Como todos devem saber, o prefeito foi assassinado, sem mais nem menos. Um tiro na axila que estourou na artéria aorta enquanto ele ia para casa, sozinho, sem nenhuma segurança ao seu lado. Ele tinha essa mania: dizia-se que era para manter o seu contato com o povo. Três meses depois de sua morte, a Polícia Civil tem um inquérito de 927 páginas, quatro suspeitos que foram soltos porque o Ministério Público não viu indícios para apresentar uma denúncia consistente e um enorme ponto de interrogação.

Dito assim, até parece verdade. Mas não é. O que aconteceu foi o seguinte: a Polícia Civil prendeu quatro suspeitos sendo que três confessaram o crime, com “uma riqueza de detalhes impressionante”, segundo o delegado seccional que coordena as operações, Osmar Porcelli. Apenas um suspeito negou o envolvimento. Todos os depoimentos tiveram a presença de quatro promotores do Ministério Público, do advogado da família do morto e que também representa a Prefeitura, além do delegado seccional e de investigadores policiais. Até mesmo o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), seção Campinas, participou. Depois, houve a procura pela arma do crime, uma Glock 9mm, que até agora não foi encontrada. Numa segunda acareação, os três suspeitos que confessaram o crime voltaram atrás, disseram que eram inocentes e que foram pressionados pelos policiais. Seus advogados alegam que foram vítimas de uma injustiça.

De acordo com o primeiro depoimento, o prefeito foi assassinado porque os suspeitos queriam roubar seu carro, um Palio 1.5, e como ele tentou fugir, sua punição foi a morte. Já no segundo depoimento, os quatro falaram que tinham seus álibis, comprovados por pessoas da família (curiosamente, um dos suspeitos disse que ficou a noite toda vendo filme na televisão, mas não se lembrava de qual filme teria visto). Duas motos foram apreendidas e a perícia apurou que elas foram adulteradas dias após o assassinato do prefeito. Ainda assim, a Prefeitura insistia para a Polícia investigar a participação de um Vectra que teria ultrapassado o carro do prefeito. Como se não bastasse, uma testemunha que viu duas motos atirarem no prefeito voltou atrás, procurando a OAB e indo à Corregedoria alegando que fôra coagido (o estranho é que essa mesma testemunha foi ao local de trabalho, de onde viu o crime, com a perícia da Polícia Civil e andava calmamente pelo lugar). No exato momento em que estou escrevendo este texto, a Prefeitura e a Câmara dos Vereadores pediram o afastamento do delegado seccional, negado pelo secretário estadual de segurança, Marcos Petreluzzi, criando mais tumulto em três meses de um crime que, se depender desse pessoal, nunca ficará esclarecido.

(Uma observação de parêntesis dentro de outro parêntesis que não pode ser omitida: Há um mês, políticos petistas receberam cartas ameaçadoras de uma tal de FARB, sendo que uma delas chegou na Prefeitura de Campinas endereçada ao prefeito morto, quando já se passara dois meses de seu assassinato. Na semana passada, a viúva do morto e a cúpula do PT, foram pedir ao Ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, conhecido por sua participação na guerrilha esquerdista, a intervenção da Polícia Federal nas investigações. Ela foi negada.)

A história é confusa, e até mesmo este jornalista foi envolvido nela, através de um cambalacho devidamente relatado no site do filósofo Olavo de Carvalho, mas pode-se deduzir algumas questões:

1) Depois de três meses do assassinato, a Prefeitura e o PT querem porque querem a tese de um crime político. Seria um novo mártir para a eleição de 2002?

2) A Polícia Civil tem mil e uma falhas, mas num crime que envolve o pessoal mais chato do planeta e tem o governador vigiando cada passo do delegado para que ele seja apolítico, vem a pergunta básica: Como pode-se fazer algo errado em uma situação que todo mundo vai pegar no pé?

3) Se o inquérito tem 927 páginas, divididos em cinco volumes, por quê o esmero pelo detalhe?

Não é mais uma investigação comum sobre um latrocínio e sim uma guerra política. O PT está arrastando esse caso para que ele crie repercussão nas eleições para presidência e governo, criando uma imagem de mártir para o prefeito, usando inclusive a viúva como garota-propaganda da Folha de São Paulo, já que faz cinco dias seguidos que a foto dela aparece na primeira página do caderno de Campinas. Para completar, temos o fato de que o delegado seccional é da parte do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, e grande concorrente de José “Araguaia” Genoíno nas urnas.

É claro que esse plano diabólico, que chega às raias da necrofilia, só pode dar certo graças às toupeiras. Vejamos então a sucessão de desinformações que rondam o caso. Quando o delegado seccional disse que iria entregar um relatório ao Ministério Público para agilizar o pedido de prisão temporária dos suspeitos, o PT logo se apressou, afirmando aos jornais que o inquérito estava encerrado – e, conseqüentemente, também as investigações. A prefeita Izalene Tiene levou uma bronca do secretário Petreluzzi porque “não sabe os trâmites comuns em investigações lentas e que envolvem pessoas políticas”. E realmente ela não sabia: mesmo se o inquérito terminasse, com a denúncia do Ministério Público e o pedido de prisão preventiva aceito, isto não significa que as investigações terminaram. Elas continuariam dentro do andamento do processo, desta vez, coordenado pelo juíz responsável. Contudo, nas manchetes do dia seguinte, em especial da Bolha (ou Rolha?) de São Paulo, lia-se: “Pressionado, Porcelli não encerra as investigações”. Ora, quem disse que as investigações terminam de uma hora para a outra, quando ainda há apenas indícios, mesmo que, supõe-se, consistentes? Mas como o caso pode ser um latrocínio, o maior motivo das 570 vítimas da violência em Campinas, e o PT não aceita que o seu prefeito foi morto por uma banilidade, os quatro suspeitos – que não são as ovelhinhas que os advogados querem mostrar – são vistos como “vítimas da impunidade policial”, do “sistema que os denigre socialmente”. O raciocínio das toupeiras segue a mesma linha, e atinge o senso comum do rebanho quando parte para a ação prática, perguntando ao vivo, pela televisão, aos pedestres: “Se o júri sobre o crime do prefeito fosse hoje, você condenaria os suspeitos?”. E a resposta do povo é um misto de ignorância disfarçada em inocência porque, como os juristas sabem, latrocínio não vai para júri popular, e é decidido pelo próprio juiz.

Infelizmente, isto não está acontecendo somente na cidade de Campinas: a situação é no Brasil inteiro. Vejam a capa da Istoé desta semana ou então dêem uma lida na Folha de São Paulo uma vez por dia que, nas atuais circustâncias, deveria mudar o seu nome para Pravda, tamanha a intensidade de sua propaganda gramsciana no seu noticiário. Na Istoé temos na capa Duda Mendonça, ex-marqueteiro de Paulo Maluf que, numa crise de consciência, resolveu fazer a campanha do PT. Foi ele quem inventou o slogan que Antonio Gramsci daria os dois braços para ter criado: “No fundo, você é um pouco PT”. Herr Freud faria uma análise brilhante desta sentença que, na sua intenção de vender um projeto político, retrata uma psicopatologia que atinge a humanidade há séculos – a paixão irracional pela ideologia, contra o sincero mergulho nos enigmas da vida. Porque se você é um pouco PT, significa que você colabora com o socialismo, um modo de vida que, nas mãos de Stalin, dizimou mais de 30 milhões de pessoas na União Soviética. Significa que você apóia Fidel Castro, um ditador que acabou com um pequeno país, Cuba, transformando-o no quintal do Komintern. Significa que você adora o Leviatã soprando na sua liberdade individual, até mesmo nos momentos em que você vai ao banheiro ou vai para a cama com seu cônjuge. Significa, antes de tudo, que você prefere a morte do seu Espírito em favor de um progresso que transforma o mundo em uma idéia prestes a ser modificada como um bloco de argila, pondo o homem no lugar de ninguém mais, ninguém menos que Deus.

Esta é a patetice em que as toupeiras caíram. Mas como conseguiram fazer essa proeza? Quando estava no primeiro ano de faculdade de jornalismo, lembro-me que um professor chegou na sala e disse logo de cara: “Deus não existe no jornalismo”. Naquela época, eu estava numa fase agnóstica, mas hoje, depois que encontrei a face da morte e sobrevivi, se encontrasse esse mesmo “educador”, perguntaria: “Ah, é, e se Deus não existe no jornalismo e se o jornalismo é feito de fatos, e os fatos são a grade da realidade, quem fez a realidade, cara-pálida?”. Se vocês calcularem que naquela sala havia cerca de cem alunos, multiplique isso por dez anos e verão o quão perniciosa foi a declaração do dito-cujo. A recusa do sagrado num mundo que torna o ser humano uma mera estatística da História, e numa profissão que, no fim, conta histórias sobre seres humanos que possuem uma individualidade, dizer que Deus não existe é o sintoma final de uma doença que nos devastou por completo. É cair da realidade para o mundo dos sonhos porque se você elimina Deus, elimina-se a verdade da alma e a percepção desta verdade. E quem cai como dois patinhos na lágoa no país das maravilhas é justamente o cidadão, tratado como um trouxa.

Assim é a classificação que os jornalistas-toupeiras fazem dos leitores: uns são trouxas, outros são os mortos. Você só pode ser um trouxa se acredita que o PT, na sua insanidade puritana, é um partido com boas intenções. Você é um trouxa se acredita que Roseana Sarney é uma alternativa a Lula-lá quando ambos acreditam que Cuba é um bom modelo de governo e ambos têm assessores do PC do B na sua equipe. Você é um trouxa se acredita que os jornais do Brasil falam alguma verdade sobre este mundo. E você é um morto-vivo, o mais completo zumbi, se tem certeza que o Brasil dará certo algum dia.

Como podem perceber, a situação da imprensa brasileira reflete o estado de espírito de uma sociedade em que nunca houve um debate cultural decente, porque isto se tornou cartilha de luta pelo poder. A elite burguesa é composta por idiotas, e os que se opõem a ela são idiotas ao cubo. E numa nação deste calibre, aquele que quer viver com alguma dignidade e aceitando os mistérios da existência, é tratado como um morto, muitas vezes como um verme. Mas o ser humano, naqueles momentos únicos de silêncio da alma em que Deus se ausenta por alguns segundos e deixa o destino em suas mãos, decide se erguer contra isso e resolve construir sua frágil torre contra os trovões da tempestade. Ele sabe do seu valor, sabe dos seus limites, e sabe que a loucura começa quando se perde a noção da única realidade que existe, a de Deus. Essas pessoas, ao contrário do assessor especial Luís Favre, têm muito contra as toupeiras que cavam o buraco do Espírito para encontrar o tolo niilismo. Quem está de olhos abertos não agüenta mais conviver com zumbis. A vingança e a retribuição podem não ser nossas, mas o fim justo só será alcançado com muito esforço e muita perda – inclusive, a do próprio Brasil.