Uma parábola sobre o vento

fevereiro 23, 2010

Se alguém está procurando o filme ideal para os atuais tempos de guerra, “Um Condenado à Morte Escapou” é a escolha certa. Na verdade, é um filme de guerra que vai contra todos os filmes de guerra: não tem cenas de batalha, gritos, sangue esguichando por todos os lados, cabeças decepadas, braços arrancados. Enfim, nada que o espectador acredita ser “espetacular”. Mas não se assuste: assim que você entrar na lógica e no ritmo do filme, verá que abriu-se uma nova porta – no caso, uma porta para a obra de Robert Bresson, um desses casos únicos do século XX.

Robert Bresson é um cineasta que, por criar um estilo ímpar – que ele chamava de “cinematográfo” porque discordava de tudo o que parecia “cinema”, isto é, espetacular e bombástico -, está no mesmo panteão de artistas revolucionários como Picasso, Joyce e Schoenberg pela obstinação e sucesso na pesquisa de uma nova linguagem. Mas se nos exemplos citados a revolução foi um estrondo, a de Bresson foi um suspiro que cresceu aos poucos, instalando-se de mansinho em um público fiel até permanecer sedimentada na memória. Esse fator de usar o tempo sempre a seu favor – justamente porque não se preocupa com ele – se deve ao fato de Bresson ser um dos poucos cineastas religiosos que dedicou sua vida e sua obra na busca do inefável, do intangível e do eterno nos detalhes do cotidiano.

O tema da busca de Bresson é a caçada a Deus. Ele procura o Absoluto despojando todos os excessos, centrando-se apenas no essencial. Seus atores são não-profissionais escolhidos na rua, treinados como modelos, ensaiados à exaustão para que não tenham expressividade dramática. Sua câmera se limita a fazer os movimentos necessários, sem firulas de lentes, luzes expressionistas ou mirabolantes travellings. A montagem combina uma riqueza meticulosa de sons recriados e sons reais, unindo cena por cena, plano por plano, para que se tenha o efeito do filme como um todo e não apenas por partes (os chamados “atos de bravura” que François Truffaut tanto falava em que o cineasta decidia se arriscar em uma cena ou outra); e no modo de contar a história, sempre escolhendo elipses, metáforas, narrações em off que possam despir o filme de sua estrutura e apresentá-lo quase nu em sua pureza.

É um exercício ascético e, por isso mesmo, de um rigor implacável. Bresson não brinca em serviço: desde do seu primeiro filme, “Os Anjos do Pecado” (1943), ele não faz nenhuma concessão, aprimorando-se na sua busca como se estivesse obececado tanto com a questão divina como com a questão de como procurá-la. Na verdade, todos os filmes de Robert Bresson são exercícios de estilo. Ele escolhe um tema e faz um filme inteiro em torno do assunto, estruturando-o em um sistema que, por trás do mínimo, cria-se o máximo. Será assim com “As Damas do Bois do Boulogne” (vingança), “Diário de um Pároco de Aldeia” (corrupção e danação), “Pickpocket” (redenção), “Lancelot du Lac” (o mistério feminino) e “L´Argent” (o mal absoluto), filmes que mostram a procura pela exatidão da expressão justa (“Controlar a precisão”, escreve em uma de suas Notas do Cinematográfo, “ser eu mesmo um instrumento de precisão”) e uma perseverança fora do comum. E não é à toa que será Bresson o criador do maior elogio sobre a perseverança: “Um Condenado à Morte Escapou”.

O filme conta a história de um prisioneiro durante a ocupação nazista na França que está decidido a fugir. Durante uma hora e meia, Bresson mostra o planejamento e a realização dessa decisão através de elementos comuns e simples: uma colher, as mãos, um lápis, colchões, urinóis, etc. Os rostos de seus atores recusam qualquer psicologismo; parecem que eles estão sendo radiografados pela câmera de Bresson que perscruta o espírito deles sem nenhuma benevolência. É como se estivesse dizendo: eles são o que são – cada um com suas esperanças, virtudes e fraquezas. Não há como explicá-los. Somente sabemos que o prisioneiro (de nome Fontaine – de “fonte”) quer escapar. Ele quer sua liberdade, só isso.

Poderia ser um excelente filme de suspense à la Hitchcock ou um filme de fuga que não ficaria nada a dever a “Um Sonho de Liberdade” ou “Alcatraz – Fuga Implacável”, mas Bresson vai além. Atrás da fuga esconde-se uma meditação sobre a graça divina e a possibilidade de ressurreição. O subtítulo do filme dá a chave: “O vento sopra onde quer”, tirado da passagem em que Jesus fala com o fariseu Nicodemos no Evangelho de João. Fontaine quer se tornar, no meio da insanidade da guerra, um renascido em Deus e, graças a Este, a luz aparecerá nas mínimas coisas, mesmo nos momentos mais tenebrosos. É especialmente tocante como Bresson mostra a pequena vitória quando Fontaine consegue soltar as algemas das mãos ou então quando encontra três homens (clara referência à Trindade) que se oferecem para passar informações para fora da prisão. Outro momento antológico ocorre na fala de Fontaine com um outro prisioneiro, um pastor, que, ao receber uma Bíblia contrabandeada, disse que “agora tudo tem um outro sentido”. O pastor passa em um papelzinho a Fontaine uma passagem dos Evangelhos, justamente o encontro com Nicodemos, que é lido para um ancião que, amargurado, desisitiu de viver e espera a morte na prisão. Fontaine lê a seguinte passagem em tom emocionado (uma raridade em se tratando de um personagem bressoniano) como se o trecho fosse dirigido a ele:

Jesus declarou: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”.

Perguntou Nicodemos: “Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar na segunda vez no ventre de sua mãe e renascer!”

Respondeu Jesus: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito. O que nasce da carne é da carne, mas o que nasce do Espírito é do espírito. Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo. O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito”. (João 3:3-8)

Mas não pensem que Bresson vai embarcar numa pregação de falso pastor. Ele se preocupa com o mistério do ser humano e todas as suas contradições. Por exemplo: na mesma cena em que Fontaine cita o Evangelho e temos essa fagulha de esperança, escutamos o som de uma metralhadora. Um prisioneiro que tentou fugir acabou de ser fuzilado. Fontaine se desespera, mas não desiste: continua preparando a sua fuga com uma lentidão irritante. “Fuja logo! Pare de ser perfeccionista!”, avisa o pastor. Fontaine não se altera; ele apenas espera o momento certo – o problema é que não sabe quando este chegará. Isso acontece com uma estranha coincidência (Bresson é um fanático por esses fatos que demonstram a presença de uma ordem superior): no mesmo dia em que avisam Fontaine que ele será fuzilado, colocam em sua cela um garoto desertor. Seria um espião ou alguém confiável?

Fontaine passa um tormento dos diabos, literalmente. Afinal de contas, sua liberdade depende da morte de alguém – e ele tem de fugir de qualquer maneira. Contudo, após uma conversa em que o jovem conta sobre sua mãe e sua irmã, Fontaine decide fugir com ele. A partir daí, temos os 20 minutos mais extenuantes do cinema, numa fuga em que cada passo pode ser uma falha e cada respiração deve estar sincronizada com a passagem do trem. Tudo culminará na segunda escolha que Bresson coloca estrategicamente: Fontaine deve matar um soldado nazista para executar a fase final da fuga. Não há outro jeito: ou é ele ou é o soldado. Obviamente, a decisão é contra o alemão. Contudo, Bresson mostra Fontaine nervoso, “escutando as batidas de seu coração” e sequer mostra o assassinato (como de hábito). Mas a força dessa escolha e dessa decisão torna o filme fascinante: não estamos falando de santos, Bresson quer dizer, estamos falando do ser humano, esse elemento sem qualquer explicação, mas destinado a eternidade, mesmo com todos os seus pecados e erros – você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem de onde para vai.

Terminada a fuga, Fontaine abraça o garoto rapidamente (em Bresson os momentos de transcendência são efêmeros) no exato momento em que se toca o Kyrie Eleison da Missa de Mozart. O jovem segura o choro e diz uma fala de emoção devastadora: “Se minha mãe pudesse me ver agora”. Ambos correm, rumo a uma névoa criada pela passagem do trem.

Em “Um Condenado à Morte Escapou” o importante é a fuga como redenção e renascimento. E aqui está a verdadeira guerra, a mais preciosa e justa de todas, que é a guerra espiritual. Fontaine luta com seus medos, ansiedades, dúvidas, escolhas, tudo para alcançar seu fim maior – a liberdade de seu espírito. O assassinato do soldado nazista é o nó górdio da questão, o momento em que ele se mostra mais humano, mais vulnerável e, por estranho que pareça, mais ligado com seu próximo. É a simples questão de sobrevivência e de preservção da vida. Bresson mostra que a redenção não é alcançada através de uma via simples e reta – é o contrário, com veredas estreitas e muito sinuosas, comprovando o que Guimarães Rosa sempre disse: “Viver é perigoso”.

É esta ambigüidade que torna essa párabola sobre o vento uma magnífica obra de arte. Bresson conseguiu uma vitória com esse filme, levando seu método e seu estilo a uma perfeição que só seria ultrapassada quatro anos depois com o sublime “Pickpocket” (1959). A partir daí, seu sistema está consolidado e não terá nenhuma alteração até “L´Argent” (1983), sua última película, talvez a mais rigorosa reflexão já feita sobre o mal junto com “O Iluminado” (1980), de Stanley Kubrick. Sua morte em 1999, aos 92 anos, foi divulgada com discrição, como foi a sua vida e sua obra. Mas é assim com as coisas do Espírito: elas exigem uma densidade e uma profundade que obrigam o ser humano ficar com os seus sentidos afiados. Para o homem espiritual, o homem que acredita na persevernça como um dom divino, o tempo é apenas um elemento a ser descartado ne lenta fogueira de rascunhos que é a vida terrena. O que importa é escutar o sopro do Vento.

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