O gado sempre vai ao poço

fevereiro 23, 2010

A Melancolia tem um rosto e seu nome é Leonard Cohen. Canadense nascido em 1934, Cohen é uma lenda-viva no rock-n´-roll, se pode chamar de apenas “rock” um gênero musical que provocou várias inovações formais e temáticas na arte da canção, o velho e bom “lied” que Schumann e Schubert tanto gostavam. Único homem capaz de rivalizar com Bob Dylan em termos de sofisticação poética, Leonard Cohen começou sua carreira como cantor e compositor de maneira inusitada: tinha 34 anos, vestia-se sempre de terno e gravata e lançara um álbum chamado “Songs of Leonard Cohen” em pleno flower power de 1968, repleto de arranjos minimalistas de violão flamenco e canções sobre loucas (“Suzanne”), romances amargos (“Hey That´s No Way To Say Goodbye”) e tentações divinas (“Song of Isaac” em que ele canta “você não sabe o que é ser tentado por um deus ou por um demônio”).

Trinta e três anos depois, Cohen volta com um álbum que entra para a história não só porque é o retorno triunfante do princípe da melancolia, mas também porque tem o sintetizador mais austero de todos os tempos. “Ten New Songs” é a chegada de Cohen àquilo que qualquer um deseja, mas poucos alcançam: a serenidade. Para quem fez um verdadeiro tratado do sofrimento naquele fenômeno pouco conhecido que é “Songs of Love and Hate” (1971), seu terceiro álbum que, por causa de canções como “Avalanche” (“Sua dor não é mérito nenhum/ É apenas a sombra da minha ferida”), um crítico escreveu que a gravadora deveria entregar como brinde um par de giletes, o novo álbum de Cohen parece um bálsamo de trânqüilidade neste mundo insano em que tentamos viver.

Composto em parceria com a também cantora Sharon Robinson, “Ten New Songs” mostra um Cohen que se depara com sua “derrota invencível” e se dá muito bem com ela. Em canções como a primorosa “A Thousand Kisses Deep” (no futuro este poema musicado será considerado como um dos marcos da literatura mundial devido à construção meticulosa de seus versos) ou a sombria “By The Rivers Dark” escutamos um sujeito que passou toda a sua vida confrontando-se com as trevas, mas agora quer um pouco de luz, mesmo que ela seja um fiapo. No seu álbum anterior, lançado em 1992, “The Future”, Cohen era o ministrel da desgraça alheia, anunciando que o futuro era a morte, a espera pelo milagre não levava a lugar algum e que o bom mesmo era farrear numa orgia decadente. Agora, depois de se refugiar num mosteiro budista, cozinhar para um mestre zen de 92 anos e ainda assim ficar muito contente com sua religião judaica, o poeta preferiu a entrada do sol pela janela e fica na esperança – palavra estranha ao seu mundo – que as luzes brilhem algum dia na terra da fartura (“The Land of Plenty”).

“Ten New Songs” é um álbum marcante pela sua complexa simplicidade escondida na voz rouca e repleta de experiência. É o testamento de um homem que, aos 67 anos, acredita que o ser humano, mesmo com toda a dor e o sofrimento que provoca e é atingido, ainda vale alguma coisa.


Vamos fazer justiça : o filmeLavoura Arcaica“, baseado no mesmo livro de Raduan Nassar que analisei em O Indivíduo há duas semanas é fiel à sua fonte. Isto significa que, sim, o satanismo que detectei continua lá, intacto, em cenas como André se masturbando (nunca vi uma punheta tão sofrida), o incesto e o momento em que André blasfema na capela para uma chorona Ana (uma interpretação marcante – porque é muda – de Simone Spoladore).

Essa fidelidade também se mostra no mesmo problema que apresenta o livro de Nassar: se o romance era muito bem escrito, com uma linguagem poética depurada, apesar de desunir os escolhos do mundo, o filme é muito bem dirigido, tanto no seu aspecto técnico como dramatúrgico. O diretor Luiz Fernando Carvalho, garoto-prodígio da Rede Globo, realmente conseguiu aquela diferença básica que todo cineasta brasileiro deseja – ser profundo e saber mexer com a câmara. Raul Cortez se redime de anos de baboseira televisiva e nos palcos com sua personificação do pai Ióhana, Selton Mello faz um André com voz de taquara rachada e Juliana Carneiro da Cunha é a típica mãe que Freud gostaria de ter como paciente: carinhosa, sempre apalpando em lugares íntimos os seus filhos mimados, o olhar compassivo sem querer notar que o pecado também bate à sua porta.

No entanto, apesar dos críticos tagarelarem sobre seu “radicalismo”, o filme tem um público-alvo bem específico e parece que o conquistou em cheio. São os intelectualóides das USPs e das Unicamps da vida. Já posso antever baluartes do pensamento estético nacional como Marilena Chuxaí, Jorge Mole e Augusto De Um Campo Só escrevendo textos no Mamais! sobre o quão revolucionário esta película será para a cinematografia nacional. Se Paulo Francis estivesse vivo provavelmente diria que este “Lavoura Arcaica” é filme para quem gosta de sodomia, o que não deixa de captar uma certa verdade. As imagens de Luiz Fernando Carvalho são sempre cheias de “sentido”; as interpretações são sempre “estilizadas”; a música de Marco Aurélio Guimarães é “autenticamente libanesa” com seu pastiche de Bach e Peter Gabriel. Tudo é muito poético, muito bonito. Eis aí uma lição que o artista brasileiro deve sempre aprender: a beleza é essencial para as mulheres, não para a obra-de-arte. Esteticismo sem nenhuma consciência moral ou espiritual leva qualquer um à loucura ou ao solipicismo. Por favor, não confundem compromisso moral com compromisso político. Uma coisa é diferente da outra, e a última é uma besteira que ficou eternizada pelos bem-intencionados chamados de esquerdosos por falta de nome melhor (e também não convém chamá-los pela alcunha que merecem nesta casta publicação). Assim, “Lavoura Arcaica”, o filme, não passa de uma farsa tão gostosa quanto um bombom de chocolate que, depois de uma hora, nos faz ir ao banheiro com uma baita indigestão. Dizer que este filme é uma obra-prima é uma afronta a qualquer pessoa que tenha sua cabeça no lugar, algo muito díficil de se encontrar nos dias de hoje.


Uma leitora leu meu texto sobre “O Bom Soldado” e logo me desancou de pancadas via e-mail por causa dos “erros de revisão”. Leitora carinhosa, não se afobe! A culpa é exclusivamente minha, não dos editores deste hebdomadário virtual. Se Pablo Neruda confessa que viveu, eu confesso que errei, uma constante nesta vida de sobrevivente em um país dominado por alucinados. A língua portuguesa – a única patria que eu suporto – não merecia tamanho estupro.

Na verdade, gosto de leitoras deste tipo, aquelas que falam que o meu português é pior do que de um marinheiro de Santos. Como não vejo os programas do sr. Pasquale porque acredito que não dá para aprender gramática lendo as letras desarticuladas de Caetano Veloso, meu conhecimento da língua portuguesa chega apenas às profundezas do sujeito, verbo, predicado e algum substantivo insólito que possa me classificar como um “intelectual”. Mas como a vaidade não é o meu forte, aviso desde já que quem me chamar de intelectual leva um sopapo na orelha. Quem leu os livros de Paul Jonhson (“Os Intelectuais”), Noberto Bobbio (“Os Intelectuais e o Poder”), Julian Benda (“A Traição dos Clérigos”) e José Osvaldo de Meira Penna (“O Dinossauro”) sabe que chamar um sujeito desta alcunha é tão ofensivo quanto falar que a mãe de alguém pratica a profissão mais antiga do mundo. Esta irritação se deve ao simples raciocínio de que um intelectual sempre preferirá a idéia à pessoa, a teoria sem nenhuma relação com a prática, a ideologia deformando a realidade e, enfim, a morte contra a vida. E, além do mais, se eu cometo os meus “erros de revisão”, o intelectual erra em tudo: no estilo, na gramática e na sua própria pessoa.

O grande problema na vida da inteligência e da cultura brasileira é que ninguém mais sabe escrever direito. O resto deveria ser o silêncio, mas se tornam apenas as conseqüências. Existem as exceções, como Olavo de Carvalho, Meira Penna, algumas coisas do Mino Carta, alguns artigos do José Neumanne, os articulistas de O Indivíduo (no qual eu não me incluo). Mas quem sabe das idéias deles? Ninguém os comenta, nem mesmo na mesinha do bar ou durante o rodízio de picanha. Discutir uma idéia mais ou menos polêmica virou um ato de blasfêmia contra as sacrossantas USP e Unicamp, as duas causas principais da decadência de uma cultura verdadeira em São Paulo nos últimos 20 anos. No caderno Mamais! (apelido carinhoso dado por Bruno Tolentino) se alguém conseguir aguentar ou entender um texto de Dona Chuxaí, Seu Mole, Herr Eisenberger, Sinhô Giannotti e Dom Augusto, ganha uma viagem de cruzeiro no dia 31 de fevereiro. Eles precisam de uma leitora carinhosa como a minha para ensiná-los como deve se escrever. Nos EUA existem verdadeiros centauros como Robert Hughes, Adam Gopnik e o sempre presente Edmund Wilson que, mesmo falecido há 23 anos, é um exemplo seguro de estilo claro, preciso e fluído.

Quanto ao Brasil, além dos já citados, é bom voltar constantemente aos ensaios de Otto Maria Carpeaux, aos livros de Sérgio Buarque de Hollanda (em especial “Raízes do Brasil” e “Visão do Paraíso”) e, atualmente, aos artigos enviados por e-mail de José Nivaldo Cordeiro, infelizmente sem nenhum espaço na pequena ou grande imprensa. Para uma vida como homem de cultura honesto, escrever bem e assumir suas falhas é fator primordial no currículo da existência. Poucas vezes a velha sentença “o homem é o estilo” teve tanta razão e, como sói de acontecer, o intelectual que atualmente reina nas terras do Bananão é aquele gado que sempre vai ao (fundo do) poço.