Lavoura macabra

fevereiro 23, 2010

“Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar, é um livro complicado para qualquer um que queira esboçar uma análise criteriosa. Em primeiro lugar, porque a qualidade estética é inegável: sua linguagem elaborada com uma poesia plástica transforma seu panteísmo em algo muito palpável ao leitor, e sua ambição artística é alcançada com sucesso, pelo menos até um certo limite. E em segundo, porque apesar de todo o seu estilo bem-sucedido, é uma obra que destroí vários princípios de uma ordem tradicional do espírito, faz isso com plena consciência de seus meios e entre suas páginas sente-se um inegável cheiro de enxofre.

Talvez isso explique a fascinação em torno desse romance e seu autor no mundo intelectual brasileiro, repleto de pessoas como o personagem principal, André, um sujeito nitidamente perturbado, confuso na hora de recitar suas palavras e que tem sua primeira aparição trancado num quarto de pensão se masturbando freneticamente. Ele será o narrador desta versão invertida da parábola do filho pródigo, em que o perdão do pai nunca será aceito, a desunião da família é inevitável e sexo entre irmãos (seja de natureza homo ou heterossexual) é apenas uma parte do problema.

Lançado em 1975, “Lavoura Arcaica” só tem um romance com quem pode rivalizar na maestria da linguagem: “Avalovara”, de Osman Lins. Mas se “Avalovara” é o ponto máximo na carreira de um escritor que estava determinado a construir uma obra dedicada à eternidade, “Lavoura” foi o início, meio e fim de um escritor que preferiu o desaparecimento seja da sua persona, como do que poderia ser sua escrita. Os livros seguintes que Raduan Nassar lançaria, “Um Copo de Cólera” e “Menina a Caminho”, não passam de apêndices de um romance que já tinha sua semente e seu espinho costurados em cada parágrafo e vírgula, num prestígio crescente que somente a inversão dos tempos e dos valores poderia criar.

Os bonachões universitários que se dizem críticos literários afirmam, com toda a hermenêutica que os deuses marxistas lhes deram, que o tema principal de “Lavoura Arcaica” é o tempo e suas conseqüências. Isso é de uma patetice para inglês ver pois qualquer obra de arte que se preze tem a obrigação de se falar do tempo. No entanto, ele nunca pode ser o tema principal – até mesmo Proust, em seu “Em Busca do Tempo Perdido”, apesar de ter essa palavra no título de seu ciclo, falava mais sobre nossas percepções através da memória e da arte do que propriamente do passar das horas ou do movimento histórico. A razão é simples: o tempo é importante, mas não é tudo. Qualquer artista que se preocupar exclusivamente com esse tema ficará aprisionado nas garras deste mundo, impossiblitando sua transcendência e a sua vitória sobre o próprio tempo.

A tragédia de André e de sua família é um exemplo claro da morte da ordem. E o que seria esta ordem? Essa é uma pergunta que obececava Aristóteles e nos persegue até hoje. Se levarmos em conta, num sentido geral, que a ordem é o caminho natural do ser humano, em que a busca da unidade e da harmonia pode ser alcançada numa vida disciplinada e de inteira dedicação ao conhecimento, então a desordem e dissipação podem parecer uma exceção. É justamente o contrário, e a mente de André, criada na linguagem de Raduan Nassar, mostra como uma ordem excessivamente rigorosa é tão perigosa quanto à uma suposta libertação das sensações.

O grande antagonista do livro, segundo a visão de André (já que o livro é articulado através de suas memórias e digressões), não é somente o seu pai Ióhana, mas especialmente a família, uma família que, ironicamente, nunca aparece com seu sobrenome. Os parentes nunca existem por inteiro: somos apresentados à mãe e aos irmãos como se fossem retalhos de uma grande maldição. Pedro, o irmão mais velho, busca André numa pensão para trazê-lo de volta para a fazenda, e temos apenas relances de sua angústia ao saber o verdadeiro motivo da fuga de André. Já a mãe é uma compadecida solitária que, ao que parece, ficou devastada com a fuga do filho, mas este não hesita em insinuar que foi seu carinho que o tornou um “enjeitado”. Do restante dos irmãos, temos apenas as presenças de Lula, o irmão caçula, e de, claro, Ana, a irmã que será o pivô de toda a desgraça.

Do pai, sabemos apenas trechos de seus sermões e parábolas, proferidos durante as refeições enquanto a família está reunida. Seu tema favorito: como colher o tempo. Para ele, o tempo deve ser cultivado com calma, paciência, pois somente assim se terá a recompensa que merece. Ióhana é um cristão ortodoxo, libanês, que acredita que o trabalho despista o demônio e mantém os alicerces da família. Mal sabe que a ruína de sua ordem é uma semente de seu sangue – o pobre André que, “perturbado com a claridade excessiva da luz e da luz através das folhas das árvores”, decide encontrar a sua redenção através da sua impaciência, encontrando na prisão da carne a liberdade de sentimentos reprimidos que culminarão em atos de bestialismo e incesto.

André é um faminto, como a párabola central contada pelo pai. Sua fome é insuportável pois ela provém do espírito, e ele não suporta a dor da solidão e do exílo dentro da própria família. Seu isolamento – pressentido numa festa em que temos a primeira aparição de Ana numa dança de roda que terá sua simetria invertida no final – o perturba e o faz querer ir contra as regras de seu pai sobre a colheita do tempo. Inicia-se uma iniciação às avessas, em que a grande obsessão é agarrar sua irmã Ana a qualquer custo. Ana – “eu” em arábe – é o símbolo da inocência que será transformada ao se unir com a perversão, e Nassar faz questão de aproximá-la ao Espírito Santo na fantástica parte em que André prepara uma armadilha para prender o que deveria ser uma pomba. Contudo, a linguagem de Raduan Nassar não distingue as coisas, colocando tudo num mesmo redemoinho, e assim descobrimos que pomba, Ana e inocência são uma coisa só, e que a tal armadilha é a consumação do ato incestuoso.

Todo mundo sabe que o incesto simplesmente destrói qualquer base da civilização. O sexo entre parentes do mesmo sangue é uma regressão à lógica da ordem da unidade e da razão porque não é um movimento expansivo, próprio da procriação da raça humana, e sim provoca a entropia do círculo familiar, chegando à completa esterilidade. Mas para André, já literalmente “possuído”, seu ato com Ana serve para justamente unir mais ainda a família, além de dar o seu lugar na mesa e de ter a sua redenção. É a típica inversão luciferiana: a procura por alguma luz se dá por uma permissividade que inverte todo o fluxo do tempo. Se o desejo de André era destruir não só a sua família, mas também os princípios de seu pai, ele foi muito bem sucedido.

Porém, como todo o bom discípulo do Diabo, André não se dá por satisfeito. Logo depois da consumação do incesto, Ana percebe o seu pecado, e vai à capela rezar por sua alma e pela a de seu irmão. É um momento belissímo da literatura brasileira, mas é também momento em que uma missa negra será celebrada. André suplica a Ana que aceite a união, que lhe dê a chance de ser da família outra vez e, num acesso de cólera (essa palavra é muito importante no mundo de Raduan Nassar), amaldiçoa a todos e decide fugir para a cidade, onde o livro começa, numa pensão em que Pedro vai buscar o irmão torturado.

O retorno à fazenda não será simples e harmonioso. Na verdade, aumentará a danação irreversível (“Maktub”, dizia o avô de André na mesa – Está escrito). A mãe devastada, o pai amargurado, dando um perdão que nem ele próprio consegue entender, Ana em orações contínuas na capela, e Pedro, atormentado pelo segredo macabro entre seus irmãos, impotente para evitar a tragédia – essa é a família que espera André. Mas o Diabo continuará a aprontar as suas: na mesma noite, perturba o pai com uma discussão em que o perdão dado nunca será compreendido (“Uma planta nunca consiguirá ver a outra”), e André sodomiza o caçula Lula ( pois “ele tem os olhos de Ana”) no silêncio do seu quarto. No dia seguinte, uma festa em comemoração à “páscoa” de André vira uma dança da morte. Ana aparece completamente perturbada, vestida como uma cigana e com pertences que André havia guardado numa caixa feita para “acabar com a família”, revelando o incesto e assim o pai, tão controlado, tão disciplinado, comete um gesto homicida num ato de fúria, deixando o final em aberto e com apenas com um capítulo como epílogo que começa com a seguinte frase: “Em memória do meu pai”.

Uma leitura cuidadosa de “Lavoura Arcaica” mostrará que Raduan Nassar joga o tempo todo com uma ironia obscura e com brechas na narração que nunca levam o leitor ao um conhecimento da realidade como uma unidade ou como um todo. Apesar de todo o seu cuidado com a casca e a gema das palavras, elas servem mais para desunir do que propriamente atar os pedaços quebrados deste mundo. Não há nada de “elevado” nessa literatura, apesar de todo o seu sucesso estilístico e, mesmo com seus requintes de linguagem, “Lavoura” é uma obra que traz o leitor para as arestas do Inferno e que, se depender dela, o deixa lá mesmo. Sua catarse é uma catarse negativa, no sentido em que não há libertação, somente aprisionamento. É a morte da ordem, o fim da inocência e a vitória do Diabo em seu exemplo mais cristalino.

Claro que existirão seus defensores. Um dos argumentos será a da “ambigüidade”. No entanto, em uma obra de arte, pode-se ter “ambigüidade” nos meios, nunca no início, muito menos no fim. Um homem que se propõe a mexer com as palavras deve ter bem claro qual é o seu lado. Como dizia Nick Cave: “A maior destruição é feita por aqueles que não conseguem escolher entre o Bem e o Mal”. A arte é essencialmente uma escolha moral. Não há meio-termo, e talvez seja por isso que Richard Wagner, um canalha consumado, ainda desperta o interesse de seus seguidores, apesar de todas as polêmicas sobre sua personalidade: sua música é uma das mais perfeitas já criadas, mas pelo menos sabemos que o sujeito era um perfeito patife através das palavras do próprio.

É justamente isso o que falta na atual vida intelectual brasileira, e “Lavoura Arcaica” é apenas um dos casos colhidos a esmo. Num país em que o bom-tom dos covardes é confundido com boa-educação, e que uma polêmica é sinal de descompostura, a pequena obra de Raduan Nassar vira unanimidade porque a ordem virou um clichê de bandeira nacional. Simplesmente esqueceram-se do problema mais importante do ser humano: a integridade do espírito. Discussões sobre estatísticas econômicas e fatores históricos são sobras de um prato em que o alimento já apodreceu há tempos. Mas os idiotas são insistentes e já está na hora de se perguntar: Será que eles sabem o que estão fazendo? É melhor deixar cair a Sombra porque o tempo dará a sua resposta no momento que lhe interessar e assim saberemos que os frutos desta lavoura nada arcaica faz parte de nossa própria condição.