A derrota invencível

fevereiro 23, 2010

You win a while, and then it’s done –
Your little winning streak.
And summoned now to deal
With your invincible defeat.

Leonard Cohen, “A Thousand Kisses Deep”

Erich Auerbach afirmava em seu clássico “Mímeses” que a grande questão da literatura e, por extensão, da obra de arte, era a de imitar o fluxo da vida em toda a sua complexidade. Isto significa que o artista deveria empregar técnicas e meios artificiais para reproduzir, numa escala muito menor, a realidade que nos rodeia e que nos obriga a aceitá-la tal como ela é, e não como gostaríamos que ela fosse. No Brasil, o poeta Bruno Tolentino é quem atualmente se preocupa com esse problema, dedicando uma obra poética e ensaística de grande agudeza, que começa com “Anulação e Outros Reparos” (1962; 2a edição, 1998), passa pelo magnum opus “As Horas de Katharina” (1993) e termina com os inéditos “O Mundo Como Idéia” e “A Imitação do Amanhecer”.

No entanto, esta é uma preocupação que tem suas raízes em Homero, atravessa Dante, complica-se no Renascimento (com Da Vinci, Michelangelo e os contos de Boccaccio) e chega a um impasse no Modernismo. Quando James Joyce lança “Ulysses”, T.S. Eliot publica “The Wasteland” e Kafka tenta terminar “O Castelo” no distante ano de 1922, a percepção da realidade se fragmenta para, a partir dos “escolhos recolhidos”, se descubrir a unidade de todas as coisas. Joyce consegue essa proeza ao partir para o mundo em que a palavra e a linguagem são um sonho que se transforma a cada minuto; Eliot embarca numa procura espiritual que culmina nos “Quatro Quartetos”, talvez o maior poema religioso do século XX; e Kafka preferiu o silêncio e a incompletude como se fossem parte de um fracasso planejado, transformando a perda em uma vitória.

Naquela época, contudo, foi lançado um livro que poucos deram importância, mas esses poucos são muitos se soubermos que foram Joseph Conrad e George Bernard Shaw. Era “O Bom Soldado”, de Ford Madox Ford, née Hueffer, lançado em 1915, uma obra-prima desconhecida que nos dias de hoje pode nos dar uma pista para a nossa encruzilhada diabólica detectada por Auerbach.

Inglês de nascimento, mas de ascendência alemã, Ford Madox Hueffer mudou seu nome durante a Primeira Guerra Mundial quando se alistou voluntariamente no exército inglês. Amigo pessoal de Conrad (juntos escreveram dois romances, “Romance” e “The Inheritors”), foi com ele que aprendeu a técnica do deslocamento do tempo, em que os blocos do presente e do passado na narrativa se misturam sem compromisso com a linearidade. Seu engajamento literário na Inglaterra só tinha um rival, com quem logo se uniria: Ezra Pound, o grande poeta-empresário-alienado político que, se não fosse por ele, James Joyce passaria fome, Eliot chamaria “The Wasteland” de “He do the police in different voices” e Yeats nunca conseguiria fugir do esoterismo charalatão das Blatavskys da vida. Ford e Pound criaram várias revistas literárias e diversos movimentos, mas cada um seguiu seu caminho artístico próprio; Ezra embarcaria numa viagem sem volta nos seus fragmentados Cantos e seria tachado de fascista por meio mundo, e Ford tentaria, com “O Bom Soldado”, fazer para o romance inglês o que, nas palavras do próprio, “Maupassant fez para o romance francês com ‘Fort comme la Mort‘ “.

Apesar da pouca repercussão quando foi publicado, “O Bom Soldado” consegue ser bem-sucedido na sua ambição. É uma daquelas obras-primas raras na literatura porque ensina ao leitor como se pode imitar as lacunas da existência humana através do estilo correto e da técnica exata. No caso de Ford, sua vitória se deve a duas razões: além de usar o que aprendeu com Conrad, ele aproveita as inovações que Henry James fez nos seus romances da última fase, como o velho e bom narrador não confiável (procedimento também usado por Machado de Assis), adicionando a procura obsessiva de Flaubert pela palavra justa e pela sentença progressiva, em que a ação da história sempre vai para a frente, com novas camadas de sentido.

A trama de “O Bom Soldado” é, como mostra seu subtítulo “Uma História de Paixão”, repleta de sofrimento porque, como veremos, envolve o que é nossa noção de percepção da realidade, o que é realmente saber sobre uma pessoa que julgamos conhecer bem e, principalmente, como lidar com o dom da perda. O narrador é Jonh Downey, americano, viúvo de uma outra americana, Florence. Há mais de dez anos, este casal conheceu um outro casal em um spa para enfermos do coração, Edward e Leonora Ashburnham. Edward é o bom soldado do título: íntegro, honesto, bem-apessoado, boa-pinta, casado com uma mulher forte, decidida – tudo isso numa primeira impressão. Leonora é uma católica-irlandesa que ama seu marido de uma maneira estranha: controla suas finanças (sempre à beira da falência) e, conseqüentemente, seus flertes com outras moças, como as jovens Maisie Maiden e Nancy Rufford, além da senhora Florence Downey.

Claro que Jonh Downey contará a sua história de traído como se nunca soubesse do caso de sua mulher com Edward. Mas isto é um engano. Downey confunde os tempos, passa do presente para o passado numa questão de linhas, faz digressões, esquece-se de detalhes, aprofunda outros que aparentemente não têm nenhum significado, se perde no emaranhado de personalidades que assombram sua vida. Assombram” é o verbo certo porque “O Bom Soldado” é também uma história de fantasmas em que Edward, Florence e Maisie Maiden estão mortos, e Nancy Rufford virou uma completa zumbi sob a proteção de Downey. O que faz o leitor perguntar: o que essas pessoas fizeram para chegarem a tal ponto?

Esta é uma das surpresas deste livro que pode parecer um mero conto de adultério, mas é um afiado estudo de como as relações humanas são, na verdade, relações de manipulação. Todos os envolvidos são, de uma forma ou outra, explorados nas suas emoções, enganando-se uns aos outros, ou o pior: enganam-se a si mesmos.

Seguindo a tradição de seus mestres Conrad e James, Madox Ford consegue passar o leitor todas as diferenças sociais dos Downeys e dos Ashburnham na magistral cena em que Florence leva seus três “amigos” ao castelo em que Martinho Lutero esboçou a primeira versão de seu Protesto e faz Edward tocar seu pulso no exato momento em que descobrem os velhos papéis que fundariam a mais bem-sucedida reação à Igreja Católica. Downey se auto-descreve como alguém que parece desconfiar do que está acontecendo (o caso entre Florence e Edward), mas é Leonora quem foge por não suportar a hipocrisia da cena. No entanto, no mesmo momento em que essa mesma hipocrisia – sempre condicionada às condições sociais – poderia ser despida, Leonora responde ao um apreensivo Downey, típico WASP, que “será que sua mulher não percebe que sou uma católica-irlandesa?”.

Nesse jogo de insinuações, de dito pelo não dito, de brechas e portas que se abrem para um labirinto de emoções onde nunca se achará a saída, os dois casais terão suas vidas transformadas durante os nove anos de “amizade”. Novos personagens entram em cena – como as senhoritas Maiden e Rufford – e a cada virada de página o leitor duvida do narrador que queria contar apenas “a mais triste das histórias”. Perguntas aparecem o tempo durante a leitura do livro: Porquê Downey está contando essa história, supondo que ele quer contar a tragédia dos Ashburnham, especialmente a de Edward? E, se quisermos ir mais longe, porquê ele está contando a história dessa forma – sem ser linear, ordenada, enfim, sem nenhuma noção do tempo?

A resposta estaria na suposição que o livro em si não é uma trama arquitetada por um deus supremo e sim um conjunto de impressões de um sujeito sobre sua própria história. Downey se esquiva ao afirmar que quer fazer um retrato completo do homem que foi Edward Ashburnham. Conforme vai narrando os fatos e descobrindo suas relações e um fio comum que dá algum sentido, Downey acaba se tornando o personagem principal em que “o bom soldado” é apenas seu duplo, seu inimigo, seu rival naquilo que qualquer um deseja e quase nunca obtém: o connhecimento do coração da pessoa amada.

Logo nos primeiros parágrafos do romance, Madox Ford joga com os duplos sentidos dos verbos “conhecer” (to know) e da palavra “coração” (o órgão, a alma, o sentimento, a própria noção de conhecimento sem a reflexão racional). Florence e Edward são doentes do coração; se conhecem em um spa, graças aos seus respectivos cônjuges, pessoas sociais, sempre razoáveis, que escondem o mínimo de exaltação em suas emoções. Contudo, Downey e Leonora não conhecem o que se passa nos corações de seus parceiros; o primeiro é enganado por Florence durante os doze anos de casamento, não só por causa de seus outros amantes, mas também porque ela nunca foi doente do coração; e a segunda aprisiona os desejos de Edward, jogando-o para os braços da jovem Nancy Rufford, justamente para mantê-lo “sempre feliz”.

Assim, cria-se uma intricada teia de escolhas mal-feitas, renúncias forçadas e vidas incompletas que somente aumenta o que já era complicado. “Tudo é escuridão”, repete várias vezes Downey, e esta escuridão também invade o espírito e as palavras de sua narrativa. Pouco a pouco, o leitor deduz que os deslocamentos temporais do livro são também deslocamentos psicológicos. Uma cena é descrita sempre de forma indireta, sempre a partir de um outro ponto-de-vista que somente Downey escutou (seria Leonora ou Edward se confessando?), nunca por um meio direto que se possa dar como certo ou confirmado. Nada é definido, todas as histórias se consomem nas sombras da destruição, em que Nancy Rufford fica louca e passa a ser a protegida de Downey (que escondia uma paixão obsessiva por ela), Edward se suicida – uma clara simetria irônica com o igual fim de Florence -, e Leonora casa-se de novo com quem deveria ser seu amante durante a história toda e nem o próprio Downey percebeu (ou fingiu não perceber).

“O Bom Soldado” é também um romance que mostra como o ser humano não consegue encarar a perda das coisas e das pessoas que pensamos ou queremos amar, e o que esta perda provoca – a incapacidade de refletir sobre seu próprio fracasso. Aí está o seu sofrimento, a sua paixão, no sentido mais explícito do cristianismo. No entanto, Downey – que perdeu Florence, Leonora, Edward e é obrigado a ver todo o dia uma jovem demente que balbucia ora “petecas!”, ora que acredita numa “divindade onipresente” – é incapaz de encontrar o fio comum que liga todas as suas experiências e que poderia lhe dar o sentido de sua história. Sua dor é tão atroz que ele sequer desconfia que é também um morto-vivo. O grande erro de todos os personagens foram a escolha infeliz de terem esmagado suas consciências individuais em nome das convenções sociais. Madox Ford, um protestante que se converteu ao catolicismo, parece querer dizer que a sociedade massacra o ser humano, seja lá qual for sua renda salarial, rico ou pobre. Os Downeys e os Ashburnham poderiam se envolver entre eles e talvez essa tragédia seria mais uma “tragédia burguesa”. Mas Ford faz questão de incluir no inferno as humildes senhoritas Maiden e Rufford, jogadas como verdadeiras petecas entre os tão respeitáveis membros de uma sociedade em que ser católico ou anglicano é apenas mais um rótulo que aumenta a nobreza nunca adquirida.

A insinceridade consigo mesmo é o pecado maior de Jonh e Florence Downey, Edward e Leonora Ashburnham. Num mundo brutal onde a inocência não tem vez, quem quer ser sincero acaba ficando maluco. Talvez isso seja uma mentira ou uma verdade, apesar da última alternativa ficar cada vez mais clara nos últimos tempos, especialmente na nossa terra papagalis. Provocar o confronto com as dúvidas e as angústias que revolvem a alma está se tornando quase um milagre para qualquer um que tente uma vida intelectual honesta. O maior exemplo está nos nossos escritores brasileiros, se é que se pode chamar de escritor um cronista de botequim como Luís Fernando Veríssimo, um auto-plagiador como Arnaldo Jabor ou meras roteiristas de sitcoms e filmes policiais banais como Fernanda Young e Patrícia Melo. Até mesmo os antigos mestres Rubem Fonseca e Carlos Heitor Cony se tornaram paródias de si mesmos, e paródias de muito mal gosto já que o primeiro prefere descrever fezes e o segundo publica crônicas feitas em cima das coxas. Todos os autores citados expressam a demência que virou o mundo cultural brasileiro, em que o escritor ficou cego ao que acontece ao seu redor, escolhendo a culpa social ou econômica como fator principal de todos os males da nação. Esqueceram-se que nosso principal problema é a morte da ordem e a escravização do Espírito, em que a consciência humana foi abolida a favor dos jargões repetitivos de propaganda política ou pseudo-religiosa. Com esse panorama de desolação, a leitura de um livro como “O Bom Soldado” não é apenas um refresco: é uma bênção divina.

Mas não pensem que, como tudo está envolto em escuridão, você pode acolher as sombras. Uma coisa é aceitar as sombras como parte integrante da condição humana; a outra é abraçá-la como uma amante. Cada livro é uma experiência, e cada experiência deve ser transformada em ação real. O que podemos aprender com “O Bom Soldado” – ou melhor: O que podemos aprender com cada obra-de-arte que nos deparamos e somos obrigados a compreender? Muito simples: aceitar nossas limitações, ou como diz Leonard Cohen na epígrafe deste texto, a nossa derrota invencível. Lidar com ela faz parte da nossa missão na terra e torná-la nossa fortaleza é um trabalho que consiste em acreditar em algo que ninguém pode entender, mas também não pode ser negado. Todos ganham por algum momento, mas ninguém ganhará para sempre, e é o poder da literatura, da palavra que une os escolhos deste mundo, do Verbo que alimenta nossa vida, que conforta a dom da perda com o manto do mistério, da graça e da redenção.