A dama comprida de bem

fevereiro 23, 2010

Jornalista que é jornalista não fica à mercê do Leviatã. Mas como ultimamente a função (e não a profissão) de jornalista no Brasil é ficar ao lado daqueles que adoram mamar nas tetas do Estado, esperando pelo milagre de ser chamado para um polpudo cargo público, é espantoso quando aparece alguém que confronta essa galera abençoada com apenas uma única arma: a palavra escrita.

No Rio Grande do Sul, temos Diego Casagrande, vencedor do prêmio Jornalista da Web do Ano de 2001, escolhido pela Revista Press aos profissionais de imprensa “que mais se destacaram em suas respectivas áreas no RS”. Casagrande é um dos poucos, ao lado de Políbio Braga, que resolveu caçar cada besteira que o PT gaúcho está fazendo, muito antes da Bolha de São Paulo descobrir a denúncia do jogo-de-bicho. Claro que esta decisão de se tornar independente a qualquer custo transformou a vida de Casagrande num inferno profissional. Ameaças de processos judiciais por deputadas que não têm mais o que fazer exceto azucrinar a vida de quem quer trabalhar sem ser cúmplice deste bando de idiotas; e-mails ofensivos, questionando de maneira maliciosa a credibilidade das informações que sua coluna virtual, “Ponto de Vista”, apresenta e discute semanalmente; e, como se não bastasse, a perseguição clara e sistemática em bloquear o seu site através do provedor que, por uma dessas coincidências sinistras, tem como sócio majoritário o governo do Estado do Rio Grande do Sul, sob o comando do sr. Olívio “Truta”.

Como cada vila tem o Taliban que merece, aqui em Campinas, cidade deste jornalista que vos escreve, também dominada por estes alucinados do PT, as coisas ficariam mais complicadas se não fosse por Edmilson Siqueira, jornalista que acredita que jornalismo ainda é “a última profissão romântica” e escreve a coluna diária “Xeque-Mate“, publicada no jornal “Correio Popular“. Por mais que os boatos, espalhados com precisão cirúrgica pela mídia esquerdosa, “afirmem” que o Correio é um jornal a favor do PSDB e que Siqueira é o porta-voz oficioso do presidente da Câmara dos Vereadores, Romeu Santini (também do PSDB), ambos estão cumprindo a função do verdadeiro jornalismo: a de nunca se curvar aos meandros do Poder instituído, ainda mais quando este Poder é um grupo de despreparados, semi-analfabetos que, na verdade, querem uma prefeitura ou a presidência da república para impor atitudes anti-democráticas e contra a individualidade humana. A coluna “Xeque-Mate” é o terror dos petistas campineiros, tanto pelas notas de bastidores que mostram um PT completamente sem pé e sem cabeça, como pelas críticas duras e ferinas às ações públicas realizadas por esse tal de “Governo Popular e Democrático”.

Mas o divertido disso é o fato de que jornalista é a raça mais vendida do mundo, e sua maioria se vende justamente para o canto da sereia do tolo socialismo. Parece que eles não leram os livros de história, pois a primeira atitude que um governo de cunho socialista faz, é acabar com qualquer tipo de liberdade de imprensa. A palavra “independência” não faz parte do vocabulário deles. No entanto, como já estamos num país de governo socialista, e ninguém percebeu, fica claro a causa da revista Época cortar os artigos de Olavo de Carvalho de semanais para mensais (com o corte proporcional ao salário), substituindo-o pela uspiana Maria Aparecida de Aquino, que se diz ser professora de História, mas parece ser mais professora de ódio anti-americano. Segundo o atual diretor de redação, Paulo Moreira Leite, saudoso trotskista, a mudança serve para ter uma maior “pluralidade” de opiniões. Como ninguém aqui é bobo, onde é que fica nessa “pluralidade” (ao meu ver, sinônimo de bordel), a coluna insípida do Zuenir Ventura?

Enfim, a pergunta que não quer calar é a seguinte: Será que esse pessoal não se lembra por quê Paulo Francis morreu?


E por falar em Paulo Francis, não era ele que dizia: “O filme é uma merda, mas o diretor é genial”? Acho que ele diria o seguinte daquele filme que todo mundo disse ser cult, excelente, maravilhoso, etc. e tal – “Memento“: “O diretor é uma merda, mas o filme é genial”. Traduzido em um português impecavelmente idiota como “Amnésia”, o filme não me causou impacto nenhum quando o vi pela primeira vez. Achei bom, e nada demais: uma estrutura metida a sofisticada, uma trama noir, boas interpretações – enfim, uma Sessão da Tarde que qualquer esnobe adoraria.

Mas ao ler a crítica de Alvaro Oppermann sobre o filme na coluna Cinemascope do site da revista Superinteressante, percebi que sou uma anta. Essa é, afinal de contas, a função do bom crítico de cinema: levar o leitor a ver um outro aspecto do filme que ninguém percebeu e, o melhor, confirmar esse aspecto numa segunda visão. Foi o que aconteceu com “Memento”. Relembrando o filme – que, curiosamente, ficou pregado na minha memória – percebi que ele não era uma mera historinha de assassinato e vingança contada de trás para frente. Claro que o final, no estilo “Coração Satânico”, ainda me irrita um pouco; no entanto, há um propósito para terminar daquela forma e só então vi a intenção do diretor Christopher Nolan (que, justiça seja feita, não é aquilo que Francis teria dito).

Para quem ainda não viu “Memento”, fique tranqüilo pois não contarei o final ou, no caso, o início. Sequer vou dissecá-lo como fiz em artigos anteriores em O Indivíduo – o jornalista Andy Klein já fez isso na revista Salon, em um artigo chamado “Everything You Want To Know About Memento“. Apenas farei uma lembrança sobre o que é o filme, um tema que todos deveriam prestar atenção porque acontece com freqüência no mundo e, principalmente, no Brasil. “Memento” fala sobre como o ser humano pode manipular e corromper as mais profundas relações que ele possui com o mundo, com seus semelhantes e, por fim, consigo mesmo. O modo como Leonard Shelby (Guy Pearce) é usado por seus supostos amigos Teddy (Joe Pantoliano) e Natalie (Carrie Anne-Moss) seria comovente se não fosse o fato que o próprio Leonard, com sua condição de desmemoriado, usa a sua memória para conformar a sua realidade com os fatos terríveis que lhe são apresentados. Esse procedimento não tem um cheiro de “déjá-vu”? No meio do seu virtuosismo técnico e na ambição de jogar com a lembrança e a consciência do espectador, Christopher Nolan fala sobre o mal-estar desta civilização em que ninguém mais consegue ver a fragilidade de sua podridão e, por isso, transforma a vida espiritual numa desordem que só encontra sentido no niilismo ou nas falsas religiões de massa.


Você sabe que mora num país doente quando chega numa livraria e vê que um exemplar novo em folha de “A Morte de Virgílio”, de Hermann Broch, custa R$ 50, ou então quando o CD mais recente do New Order, “Get Ready”, está na boca dos R$ 30. Depois, compara alguns preços e constata que o CD da Sandy & Júnior custa menos de R$ 20 e que uma caixa com três livros do Paulo Coelho fica em torno de R$ 35. É como um soco na cara: a cultura no Brasil, se ainda se pode chamar isso de cultura, está nas mãos de dementes.

O grande problema de uma pessoa que queira ter uma vida intelectual honesta no Brasil é o dinheiro, ou melhor, a pressão psicológica de se ter algum dinheiro. Se ele apelar para uma biblioteca pública, chorará de tristeza porque os livros se encontram em tamanha petição de miséria que um mero toque num exemplar mal-tratado pode transformá-lo em pó. Como se isso não bastasse, temos a escolha pouco criteriosa dos próprios livros: sai Machado de Assis e Aristóteles, entra Jack Welsh e…. Paulo Coelho, claro. Muitas vezes, essas escolhas se devem à má-educação (em todos os sentidos desta expressão) das bibliotecárias e dos supervisores delas que, afinal, são os infelizes que fazem a lista de futuras aquisições, sempre dependendo das tetas do Estado ou de algum empresário com consciência pesada que resolve despejar alguns reais em livros recomendados pelo MEC, Ministério de Embalagem Comunista.

Além desses fatores, temos a sutil conspiração de professores que nos perseguem do primário à universidade com maluquices gramscinianas, prontas para inverter qualquer valor. Também temos a corrida desesperada para ter o pão nosso de cada dia na mesa do lar e, se você tem uma família, na boca das suas crianças. Aí, quando chega o fim-de-semana e você quer descansar só um pouquinho, descobre que para ler um Hermann Broch custa 1/3 de um salário mínimo e para ir ao cinema ver o mais tolo dos filmes, o preço é dez reais (e não, você não usa nenhuma carteira estudantil porque não faz parte dos seus princípios ajudar mantenedoras de FARC e movimentos zapatistas ).

A situação é de se jogar no abismo. Contudo, nunca, em hipótese nenhuma, deve-se desisitir. A vida intelectual implica em sacríficios, em uma constante luta contra a futilidade do mundo. Tudo o que falei acima, todos estes obstáculos são tentações – isso mesmo, tentações – que servem para desmotivar o mais fraco. É o mundo querendo nos raptar na sua lógica de quinta categoria, não querendo que tenhamos um pouco destas curtas visões da eternidade que nos dá o amor pela verdade e pela sabedoria. Ter emprego com um bom salário é muito bom, sem dúvida, e não há nenhum pecado em querer ser rico, mas não se pode ser apenas rico para depois ficar nos braços da mera sobrevivência. Você deve ser pago pelo seu trabalho, nunca trabalhar para ser pago. O mergulho para uma consciência mais elevada custa perseverança, disciplina, honestidade com seus próprios demônios e, claro, uma boa dose de sorte, conhecida também como Graça. O difícil mesmo é não perder o controle da luta. Como disse o professor Olavo de Carvalho, em uma entrevista publicada no livro “O Imbecil Coletivo”:

“A mensagem do filósofo aos jovens estudantes, no que diz respeito à dificuldade financeira, é simples: quanto pior ficar a sua condição econômica, mais se apeguem à sua vocação intelectual. Não cedam à pressão de um mundo que quer matar em vocês o espírito à força de atormentá-los com problemas financeiros. O mundo, no sentido bíblico do termo (isto é, a sociedade mundana), só respeita quem o despreza. Na Primeira Guerra Mundial, o físico Werner Heisenberg, então um adolescente, numa cidade reduzida à miséria pelo cerco e pelos bombardeios, se escondia no porão de uma igreja para ler Platão e discutir com seus amigos a metafísica de Malebranche. Foram os anos decisivos de sua formação: ele poderia tê-los perdido, aguardando dias melhores para estudar. Mas nada, neste mundo, pode vencer a determinação do homem que é fiel à vocação espiritual. Não se intimidam, não desistam. Quanto mais pobres vocês ficarem, mais se dediquem aos estudos. A porcaria reinante não prevalecerá sobre a sinceridade de seus esforços. Digo isto com a experiência de quem, ao longo de mais de duas décadas de pobreza, com mulher e filhos para sustentar, jamais deixou de estudar um único dia, aproveitando cada momento livre e abdicando de toda sorte de viagens e divertimentos. Nunca esperei que minha situação melhorasse para depois estudar, e garanto: seja teimoso, e um dia o mundo desiste de tentar dominar você pela fome”.


Uma outra leitora minha (não é a carinhosa) me ligou depois de ter lido um artigo meu publicado no jornal “Correio Popular” de Campinas, intitulado “Conheça seu inimigo”, e disse que eu estava sendo muito fatalista nos últimos tempos. Como não ser fatalista depois que quatro sujeitos jogam dois aviões nas duas maiores torres do mundo?, respondi. Ainda assim, o adjetivo “fatalista” me perseguiu pois me veio a seguinte pergunta: Será que este jornalista não acreditava mais na possibilidade de uma luz, da redenção da humanidade, do milagre que, na última hora, faz o bem prevalecer?

A resposta foi um sim mais do que positivo. Por mais fatalista que este jornalista seja, ele acredita piamente que há uma luz no fundo do poço. E onde ela se encontra? Às vezes você pode encontrá-la no lugar mais improvável do mundo como, por exemplo, numa loja de chocolates.

Não, leitor, não usarei o espaço deste hebdomadário virtual para declarações de amor obscuras. O assunto que abordarei vai mais longe e sai das redondezas do meu umbigo. Mas que tal começar por uma história que, num procedimento muito esquizofrênico, será contada em terceira pessoa para que o leitor tenha algum distanciamento? Bem, vamos começar por este jornalista que, seguindo o princípio que todo mundo deve ter um ritual para não ficar maluco, vai a uma determinada loja de chocolates todo o santo sábado. O motivo do ritual, claro, não são os chocolates em si, muito bons por sinal, mas uma moça que trabalha lá. Conhecem a atriz francesa Emmanuele Béart? Essa moça é igualzinha a ela, com a diferença que deve ter 20 anos a menos e está na frente dele todo o sábado, vendendo chocolates com uma mistura de timidez e recato que muitos pensarão que é mais fria do que um iceberg (é o que o jornalista pensa enquanto escreve estas linhas).

E que raios isso tem a ver com este texto? Não se afobe, por favor. Vamos com calma. Todo o sábado o jornalista vai à loja de chocolates, pede um doce de marshmellow que provevelmente aumentará em 400 g o peso da sua barriga, observa a moça atender os clientes e se pergunta: Quando essa daí vai para o brejo? Ou seja: Quando o vento idiota atacará tamanha demonstração de inocência? Seu código de vendas é o número 4 e o fato dela também usar o código de número 7 dá ao jornalista a possibilidade de brincar de René Guénon. É o que ele faz durante oito meses em que, como um maníaco, reúne em quatro potes de vidro uma centena de notas fiscais, todas assinadas pela moça (que, a essa altura, acha que está lidando com um lunático) apenas com seu código de vendas – o tal do número 4. Para quem não sabe, o algarismo quatro simboliza, naquilo que Guénon, Mircea Eliade e outros chamam de Ciência Sagrada, a completude espiritual. Há vários exemplos: os quatro pontos cardeais, os quatro lados da cruz, os quatro elementos da terra, etc. Muitos estudiosos dizem que o quatro é o número que completa a ordem do cosmos já que a trindade é composta pelo Pai, Filho e Espírito Santo, e o quarto elemento seria o próprio Deus (desconfio desta argumentação, mas como não sou teólogo…). Além de todas essas correspondências, há um interessante fato matemático de que, somando os algarismos 1, 2, 3 e 4, teríamos a primeira dezena da seqüência numérica.
Isso sempre fascinou o tal jornalista que resolveu aplicar toda essa Ciência em uma só pessoa: a moça da loja de chocolates. Se a experiência deu certo? Como diria Bob Dylan no seu mais novo aforismo: “There ain´t no limit to the amount of trouble women bring” (Não há limite para o monte de problemas que as mulheres trazem). Pouco importa o final desta história – até porque não se sabe ainda como terminará. Mas o fato é que existe, neste conto estranho e sem nexo nenhum (como acontece com as coisas que envolve um homem e uma mulher), aquela procura – desesperada? – pela luz que um fatalista tanto precisa. Ninguém quer ficar mergulhado na escuridão para sempre – mesmo com o país à beira de uma guerra civil e governado por um bando de alucinados. Talvez, para o jornalista em questão, o milagre que faz o bem prevalecer está ali, na sua frente, na cópia mirim da atriz francesa, com uma beleza que, de tão perfeita, só pode dar início ao terror do sofrimento.

Porque quando se depara com esse ser enigmático que é a mulher, prepare-se: tudo terá uma dificuldade a mais, um obstáculo que não se sabe se pode ser ultrapassado, um penhasco que se abre a cada instante. Você está num delicioso inferno. Veja Dante Alighieri: passou a vida toda atrás de uma visão chamada Beatriz, fez os mais belos poemas líricos da língua italiana e, como se não estivesse satisfeito, criou a “Comédia” só para reencontrá-la no Paraíso. Ele tinha um motivo bem simples: Beatriz morrera aos vinte e um anos, e Dante nunca teve tempo de, digamos, consumir o seu amor. A sua dura tarefa de narrar a selva escura em que se perdera após a morte da amada foi a única forma de ver o brilho do Sol que gira com as outras estrelas.

E é assim que caminha a humanidade: não através do mero contato de corpos e sim através dos saltos de fé que um homem faz para conhecer uma mulher e vice-versa. São estes saltos – que são um dos atos mais elevados que dois seres humanos podem fazer, impedindo o aspecto de jogo fútil que envolve esta “obscura condição” – que as falsas religiões, os movimentos políticos e os pensadores de meia tigela querem acabar, tudo em nome da igualdade e dos “direitos humanos”. Querem corromper o contato mais íntimo entre duas almas a favor da sociedade, e o pior é que todos estão caindo nesta cilada. Talvez não haja mais uma esperança, e a redenção não passe de uma bobagem que só mesmo os fatalistas acreditam (já que os otimistas não sabem mais no que acreditar, dada a variedade de opções). Existirá alguém mais precioso do que os rubis, uma dama comprida de bem, como a nossa moça da loja de chocolates, com “sua silhueta na luz do sol que se dissolve nos olhos onde o brilho da lua nada” e que ninguém, assim espera-se, conseguirá destruir?